Associação Helênica de Santa Catarina

Coletividade Helênica de Santa Catarina: a mais antiga do Brasil

Embora a presença dos gregos seja desconhecida por muitos, a comunidade influenciou significativamente na formação da identidade sociocultural da cidade. Durante muitos anos tiveram hegemonia no comércio de secos e molhados no centro. Alguns descendentes exerceram papel de destaque na sociedade, como o governador de Santa Catarina, Jorge Lacerda, natural de Paranaguá, que administrou o Estado entre 1956 e 1958; o vereador Antônio Paschoal Apóstolo, que em agosto de 1956 assumiu a prefeitura interinamente enquanto o prefeito Osmar Cunha estava em viagem aos Estados Unidos e o ex-presidente da Academia Catarinense de Letras (ACL) Paschoal Apóstolo Pítsica. Recentemente o casamento de uma descendente, Priscila Komninos, com o jogador de vôlei Giovane, feito na tradição ortodoxa, foi noticiado na TV e nos jornais, e contribuiu para colocar a colônia em evidência. A história nos relata que o acaso fez com que Florianópolis, capital de Santa Catarina, fosse sede da primeira colônia grega constituída no Brasil. Foi em 1883, quando o veleiro mercante “Lefki Peristerá” (“Pomba Branca”), suspendeu, por algumas semanas, sua viagem com destino a Buenos Aires, em função de avarias sofridas em uma tempestade próximo ao Farol de Santa Marta, em Laguna – Santa Catarina. A embarcação retornou à antiga Desterro, atualmente Florianópolis, para fazer reparos no mastro danificado. Neste momento, alguns dos tripulantes da embarcação resolveram instalar-se definitivamente nesta Ilha. Algum tempo depois, o capitão da embarcação retornou a Desterro com professores e profissionais liberais dispostos a estabelecer uma comunidade grega na Capital, dando origem à primeira colônia grega constituída no Brasil. Todos tiveram origem na aldeia natal de Savas, na pequena Ilha de Kastellorizon no Mar Egeu. Hoje, sabemos que esta história faz parte da história de origem das famílias Kotzias, Spyrides, Atherino, Pítsica, Nicolacópulos e tantas outras de origem grega que residem no Brasil.

O Capitão Grego

Cronologia associada a fatos históricos e catarinenses

  • Ano de 1883: O Capitão Savas Nicolau Savas chega pela primeira vez ao continente sul-americano. Ao regressar de Montevidéu, visita a Ilha de Santa Catarina e deixa alguns gregos em Desterro.
  • Ano de 1885: João Pandiá Calógeras realiza pesquisas geológicas no Estado de Santa Catarina.
  • Ano de 1887: O Capitão Savas deixa a Grécia com destino à América do Sul, pela segunda vez. Permanece um ano em Viena do Castelo (Portugal), onde aprende o idioma português.
  • Ano de 1889: O Capitão Savas Nicolau Savas voltou à Ilha de Santa Catarina, para fixar residência em Desterro, atual Florianópolis. Traz consigo seus pais, Nicolau e Eudoquia Savas, seu irmão Miguel Savas e seu cunhado médico, Dr. Constantino Nicolau Spyrides. Prossegue sua viagem até Montevidéu e Buenos Aires. Em Buenos Aires, vende o seu navio, Lefki Peristerá (Pomba Branca). A 15 de novembro, propagou-se por toda a província a noticia da Proclamação da República, no Rio. Santa Catarina adere à República, a 17 de novembro. A 24 de novembro, a junta governativa da província de Santa Catarina passa o governo ao tenente Lauro Severiano Müller.
  • Ano de 1890: Com sacrifício e persistente esforço, o Capitão Savas consegue atrair inúmeras famílias gregas de Kastelorizon. Chegam a Desterro Estefano Savas, outro irmão do Capitão Savas, Agapito Iconomos e Nicolau Tzelikis, para comandar os vapores de propriedade do Capitão Savas.
  • Ano de 1891: Em dezembro, o Palácio do Governo é cercado e atacado por manifestantes do partido federalista de oposição. O Capitão Savas Nicolau Savas, juntamente com o Sr. Raul Tolentino, entram no Palácio do Governo, acompanhados de seis operários da empresa do Capitão Savas e garantem a retirada do governador Lauro Severiano Müller de dentro do Palácio, que, constrangido, renuncia, entregando o Governo ao major Firmino Lopes Rego.
  • Ano de 1892: O Capitão Savas é nomeado Cônsul da República Argentina no Brasil. Torna-se correspondente do jornal “La Prensa” de Buenos Aires. Estabelece-se em Desterro com casa comercial, e abre filiais em Paranaguá, no Estado do Paraná, em Montevidéu e Buenos Aires.
  • Ano de 1893: A 6 de setembro, surge a Revolta da Armada. Grande parte da esquadra nacional, sob a chefia do almirante Custódio José de Melo, revoltou-se contra o governo federal. Em dezembro, as forças rebeldes chegam a Santa Catarina. Os vapores Tagus, Vesuvio e Nuevo Harinero, de propriedade do Capitão Savas, fazem o serviço comercial de exportação de produtos nossos à Argentina. Os produtos importados de Buenos Aires, além do consumo na ilha de Santa Catarina, são distribuídos por três patachos, de propriedade do Capitão Savas, aos portos de Itajaí, Laguna e São Francisco.
  • Ano de 1894: A 17 de março, Desterro rende-se às forças legais. Ocupa o governo, a 20 de março, o comandante do 7º batalhão de Infantaria, Coronel Antônio Moreira César. Personalidades civis e militares de ambas as facções políticas, tendo ou não participado da revolução, são presos e fuzilados, sem julgamento sumário, nas fortalezas de Ratones e de Santa Cruz, na ilha do Anhatomirim. O Capitão Savas Nicolau Savas, Cônsul da República Argentina no Brasil, com a ajuda de seus vapores com a bandeira da Argentina, salva dezenas de civis e militares que se encontravam encurralados ou escondidos no interior da llha de Santa Catarina, e deixa-os em liberdade em Buenos Aires.
  • Ano de 1895: Em face da decadente densidade demográfica na Ilha de Santa Catarina, o governador Dr. Hercílio Pedro da Luz promove a sua colonização, concedendo um lote de 5 a 10 hectares, a preço módico e a prazo de dez anos sem juros, aparelhamento agrário e garantia de subsistência, até a primeira colheita. Isto porque os elementos nacionais e estrangeiros instalam-se preferentemente em terra firme, ou seja, no continente.
  • Ano de 1896: A 18 de outubro, o Capitão Savas inaugura o serviço de navegação a vapor, unindo a capital à vizinha cidade de São José. O vapor “Aida” sai do trapiche Hoepcke, com destino a Coqueiros e São José, levando a bordo o Sr. Abílio de Oliveira, representante do governador Dr. Hercílio Pedro da Luz; o coronel Antônio Moreira César, comandante da guarnição; tenente coronel Henrique M. de Abreu e Major José Maria dos Santos Carneiro Júnior, superintendentes municipais desta capital e de São José e outras autoridades. O Capitão Savas compra a “ilhota da Saudade”, em Coqueiros, para atracar seu rebocador “Aida”.
  • Ano de 1900: O Capitão Savas inicia o serviço de diligências, entre Florianópolis e o município de Palhoça. Mantém o serviço de travessia da ilha de Santa Catarina ao continente (Estreito), para transporte gratuito de seus operários, familiares e trabalhadores.
  • Ano de 1901: O Capitão Savas adquire dos Estados Unidos um motor movido a gasolina, que é usado no rebocador, a fim de transportar gratuitamente qualquer cidadão entre a ilha e a ilhota da Saudade, em Coqueiros no continente. Torna-se proprietário de grande área de terras, nas proximidades da Tapera e Ribeirão da Ilha, o vastíssimo campo da Ressacada, que, posteriormente, veio a ser a sede da Associação Catarinense de Hipismo e, ultimamente, o atual Aeroporto Hercílio Luz. Procura incrementar a criação de gado bovino e ovino e de cavalos puro sangue, vindos da Argentina. Prossegue nesta atividade até o ano de 1913, desenvolvendo a criação do gado mestiço e de ovelhas de raça Lincoln.
  • Ano de 1904: O vapor Tagus incendeia em Paranaguá, pouco após o vencimento do seu seguro, antes de sua renovação, abalando as finanças de sua empresa. Não demorou muito, e novo infortúnio sobreveio, quando o vapor Neuvo Harinero perde o leme em alto mar.
  • Ano 1905: Adquire a vastíssima fazenda “Tabuleiro”, atual reserva ecológica do estado, na baixada do Massiambu, que a denominou de “Parnaso”. Compreende uma área de 49.905.100.00 metros quadrados, situada no antigo município de Palhoça, entre Vargem do braço, Teresópolis, Capivari e indo além de São Bonifácio. Desenvolve ali a criação do gado bovino de raça.
  • Ano 1912: Oferece-se para lutar pela Grécia, alistando-se como voluntário, o que não foi aceito pelo primeiro Ministro da Grécia, Eleftério Venizelos, em face de sua avançada idade. Trinta famílias de gregos chegam a Florianópolis, vindos de Kastelorizon, a convite do Capitão Savas, onde passaram a trabalhar em suas propriedades e sobre tudo, em Serraria, em Massiambu.
  • Ano 1916: O Sr. João Pandiá Calógeras, neto do Grego João Batista Calógeras, é investido no cargo de Ministro da agricultura, no governo do Sr. Venceslau Brás.
  • Ano 1917: O Capitão Savas ocupa o cargo de “Canciller del Consulato General de la República Argentina”, no rio de Janeiro, onde presta relevantes serviços.
  • Ano 1919: O Sr. João Pandiá Calógeras é empossado no cargo de Ministro da Fazenda. Após, foi o primeiro civil a ocupar o Ministério da Guerra, numa inovação do Governo de Epitácio Pessoa.
  • Ano 1926: A 2 de outubro o Capitão Savas vem a falecer em Desterro, na residência do seu sobrinho, Sr. Miguel Atherino, comerciante na Capital. Aos seus funerais compareceram o Sr. Abelardo da Fonseca, oficial de Gabinete do Governador Adolfo Konder, representantes de todas as classes sociais, a Diretoria da Associação Helênica de São Constantino, membros da colônia grega e representantes do alto comércio. Deixa um filho, o Sr. Miguel Savas.
  • Ano 1926: A 9 de outubro, em Blumenau, o Dr. Victor Konder, Secretário da Fazenda, Viação, Obras Públicas e Agricultura, manifesta seu pesar pelo falecimento do Capitão Savas, “cujo nome se acha vinculado ao desenvolvimento do nosso estado”.
  • Ano 2008: A 2 de fevereiro, em Florianópolis, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Consulado do Samba desfila com o enredo “A epopéia de Savas – de Kastelorizón ao Desterro, tem grego na Conselheiro!” buscando o inédito tetracampeonato no desfile das escolas de samba de Florianópolis, organizado pela LIESF.

Fonte: Livro: Os Gregos no Brasil – 1983
Savas Apóstolo Pítsica

Abandonando o rochedo

Emigração de Kastellorizo (Grécia 1870-1939)

Esta versão é uma homenagem às famílias dos gregos de Kastellorizo que emigraram para a ilha de Florianópolis (SC) e para Paranaguá (PR): Agapitou, Anastassiou, Athanassiou, Atherino, Christofis, Diamantaras, Fermanis, Ikonomou, Joanides, Kailis, Kalafatas, Kambouris, Katsipis, Komninos, Kondiliou, Korfou, Kotzias, Koutsoukou, Lakerdis, Lukas, Mandalis, Markou, Mavrou, Pitsica, Savas, Spiridis, Stavrianou, Triandafilis e Yarakou.

Introdução

Nós todos temos ouvido estórias sobre a prosperidade de Kastellorizo no século XIX quando barcos de dois e três mastros e barquinhos lotavam o porto seguro da ilha e onde seus comerciantes navegavam pelo Mediterrâneo infiltrando-se na Ásia ocidental buscando oportunidades mercantis. Na verdade o grande ideal do legendário Kastellorizo está imbuído de um sentimento de nostalgia destes dias passados quando a ilha era considerada um movimentado entreposto com uma classe ascendente de mercadores que acumulavam considerável riqueza com o comércio.

As estórias que ouvimos não são tão exageradas. Ao final da revolução grega em 1828, Kastellorizo estava bem posicionada para tirar vantagem de sua localização estratégica. Em meados de 1829, a maioria dos ilhéus retornaram (eles foram forçados a abandonar a ilha durante as hostilidades) e os otomanos mostraram notável liberalidade no que se refere às consequências da revolução, impondo a Kastellorizo somente uma modesta taxa anual (mahtoú) de 48.000 grossia (moeda otomana) pagável em três prestações iguais.

Os kastellorizios também ganharam o direito de auto administrar seus assuntos internos através de cinco demogérontes (conselheiros anciãos do povo) eleitos e supervisionados por um passivo governador otomano o kaimakám. Permitiu-se aos ilhéus: administrar a coleta de impostos, a condução dos assuntos religiosos e o gerenciamento da saúde e do saneamento. Os otomanos seja por intenção ou por falha, criaram um ambiente que encorajou o empreendorismo. Isto combinado com o advento das viagens seguras no alto mar foi a base para a origem da riqueza na ilha nas próximas três décadas.

O que me levou ao tema deste artigo: se Kastellorizo foi tão próspera como se divulgou nas segunda metade do século XIX, por que seus habitantes escolheram partir desde 1870 para vários locais do mundo inteiro?

O que foi que catalisou as intrépidas viagens a lugares como Santa Catarina (Brasil), Nova Iorque, Rússia, África central e do sul e Austrália? Foi realmente a grande oportunidade econômica que estes locais ofereceram, ou existia na ilha questões profundas que precipitaram essas corajosas aventuras?

Se é para dar uma explicação, as decisões sobre emigração foram na maioria muito atreladas e acarretadas por eventos de e ao redor de Kastellorizo. Até pouco tempo, nós pensávamos que a história local da ilha e a experiência da Diáspora eram fenômenos não relacionados; mas pesquisas mais recentes mostram que o refluxo e o fluxo da emigração de Kastellorizo estão intimamente interligados a eventos mais específicos referentes a tendências cambiantes na ilha.

Construção de navios

Vamos começar com os otomanos. Além da liberdade de religião e de língua, e da isenção de recrutamento (militar), outra importante concessão dos otomanos foi permitir aos ilhéus o direito de construir seus próprios navios com a aprovação do kaimakám. Essas autorizações foram dadas ao redor de 1840 com a expressa condição que o navio não poderia ser vendido particularmente a um estrangeiro nem navegar com bandeira estrangeira. Para dar substância a esta permissão, transcrevemos abaixo uma tradução (do turco) da autorização de 28 de outubro de 1841 pelo Pashá otomano de Rhodes referente ao pedido de um kastellorizio chamado Hatziyanis Hatzimarkou:

A ilha de Kastellorizo aos seus notáveis e a todos os cidadãos desta ilha faço saber que: sendo ela uma ilha rochosa sem terra a ser cultivada, seus habitantes são obrigados a ir ao mar para a sua sobrevivência e para pagar suas taxas. Então apareceu diante de nós Hatziyanis Hatzimarkou um kastellorizio que deseja construir barcos de aproximadamente 15 metros de comprimento em Kastellorizo; e que sabendo ser ele confiável e um cidadão leal nós autorizamos que ele construa os barcos e que navegue com eles com a bandeira otomana e com marinheiros de Kastellorizo com a condição e obrigação de nunca os venderem a terceiros e que os operem para seu próprio benefício.

Com a construção dos barcos em marcha, a frota mercante da ilha cresceu rapidamente entre 1835 e 1850. Este crescimento é evidenciado pelo fato de que desde 1836 o ministério do exterior britânico indicou um permanente cônsul comercial na ilha (Fortunato Bigliotti) que também representava a Rússia e a Itália. Sua função foi aprimorar o intercâmbio comercial entre seus súbditos e os comerciantes locais e os proprietários de barcos. Com o tempo ele tornou-se um ativo participante nas transações particularmente da indústria de esponjas.

Construtores de barcos e comerciantes de outras ilhas como Nikolettos Karalis de Syros e Tourkomanoli de Hydra rapidamente estabeleceram suas empresas na ilha com o fim de lucrar com o aumento da atividade e a bacia de Mandraki tornou-se uma grande instalação para a construção de barcos, alcançando o nível de 20 embarcações em construção durante bastante tempo. Simultaneamente o porto principal da ilha (Kavos) tornou-se uma verdadeira cidade-mercado como a descreveu um viajante britânico em 1841 chamando-a de metrópole do comércio onde cada produto provisionado achava prontamente seu mercado. Em 1880 Kastellorizo tinha a maior densidade populacional do mundo como atestam as fotografias de Kavos da época!

Catadores de esponjas

Aliado ao crescimento desta atividade na ilha cresceu também o número de jovens mergulhadores engajados na captação de esponjas ao longo da costa da Síria. Esta exploração está no relatório do agente consular britânico em 1839:

Todos os gregos que se engajaram neste ofício vem do arquipélago de Kastellorizo. Com média anual de 290 a 300 gregos mergulhadores foram a Trípoli espalhando-se daí para toda a costa Síria. Em Trípoli, Batrun e Latakia alugavam barcos apropriados para mergulho com 3 a 6 mergulhadores. Como os barcos que os gregos traziam não serviam para o mergulho, eles os deixavam em Trípoli e os usavam somente para a ida e para trazer de volta as esponjas que eles tinham captado. Quase todos os mergulhadores de Kastellorizo trabalhavam para o senhor M. Bigliotti, um toscano estabelecido em Rhodes que adiantava para eles o dinheiro no inverno. Contratualmente obrigava-os a vender a ele todas as esponjas capturadas durante a estação a preços bem abaixo dos preços de mercado e desta maneira cobria muito bem os valores antecipados.

Sem surpresa, não durou muito para que o regime otomano percebesse que sua liberalidade (consequência da devastadora revolução grega) foi um pouco generosa demais especialmente na construção de barcos, casas e no patrimônio acumulado pela municipalidade através da coleta de taxas das esponjas importadas. Consequentemente em 1844 o nomarca de Rhodes, Hasan Pasha, impôs uma sobretaxa de 10% nas esponjas trazidas para comercializar na ilha de Kastellorizo. E ainda, como demonstração da crescente supervisão otomana sobre a classe empresarial emergente da ilha, o Pasha ordenou o cadastramento de todas as casas com o nome de seus proprietários e este documento foi preparado e despachado para Constantinopla (Istambul) em 1847. Isto representa o primeiro inventário da ilha, das propriedades e seus donos e serviu para mostrar às autoridades os benefícios econômicos que os ilhéus tiveram com os privilégios concedidos.

Tal foi a prosperidade burguesa da ilha durante este período que registros financeiros desde 1844 mostram que a municipalidade tornou-se uma instituição financeira virtual adiantando empréstimos de curto prazo aos munícipes enquanto a cidade crescia com lucros generosos provenientes da venda de parcelas de terra não produtiva aos seus comerciantes capitalizados. Torna-se preocupante porém que a partir de 1850 os turcos otomanos começaram a cancelar alguns dos privilégios que tinham sido as bases deste novo “boom” de enriquecimento. E como sinal do que sucederia a taxa anual foi aumentada em 1851 de 48.000 para 51.455 grossia e a responsabilidade pelo pagamento do salário do kaimakám e seus dez membros da força policial foi transferida para o tesouro da municipalidade.

Como se sabe, os kastellorizios nunca foram tímidos em protestar e em julho de 1849 enviaram ao Pasha de Rhodes uma severa repressão contra o novo kaimakám, Hatzi Katir Agha (cujo salário eles agora estavam pagando) pedindo a sua imediata remoção por corrupção e práticas desabonadoras. O documento (abaixo) atesta a corajosa posição dos ricos ilhéus vis-à-vis os chefes otomanos na época mesmo quando a onda estava começando a virar contra eles:

“Nós residentes de Kastellorizo, observamos que seu representante aqui, Hatzir Katir Agha, tem trazido à nossa comunidade grande sofrimento porque ele tortura, pune e prende mulheres e homens sem razão e sem qualquer investigação. Tendo em vista que ele trouxe tal tirania a este lugar e conhecedores de que nosso respeitado e amado Sultão deseja a paz, a tranquilidade e o progresso dos seus cidadãos, nós imploramos a sua alteza que mande urgentemente um governante mais sensível para nossa ilha.”

Este apelo para a remoção do kaimakám foi atendido e o Pasha de Rhodes enviou um novo e mais genial kaimakám, o Omer Agha, para servir na ilha. Enquanto alguns kastellorizios podiam agora considerar-se entre os mais ricos proprietários de barcos e comerciantes das ilhas do mar Egeu, evidencia-se que esta nova prosperidade não se distribuiu uniformemente pela população emergente, que já em 1850 alcançava 8.000 pessoas. Esta desigualdade manifestou-se mais claramente no sistema enraizado de “dotes” (prika) onde a família da noiva era obrigada a dar presentes substanciais tais como terra e joias a sua filha e ainda dinheiro ao genro pretendente antes ou durante o casamento. Para combater este problema que acarretou uma enxurrada de litígios no fórum cível da ilha, a municipalidade emitiu a seguinte ordem à população no dia 20 de dezembro de 1856:

“Todos os residentes desta ilha reunidos hoje em assembleia geral consideraram a situação atual onde os noivos demandam para si a prika: a tradicional casa, uma segunda casa, um pedaço de terra e outros itens inaceitáveis e opressivos, com indiscrição e crueldade. Desta maneira os pobres pais ficavam mais infelizes e terminavam na extrema miséria, já que não podiam de recusar.

Com uma voz estrondosa jovens e velhos clamavam pelo fim deste destrutivo e pernicioso costume. No futuro os noivos que quiserem casar terão o direito receber como dote somente uma casa e as roupas tradicionais da noiva. Qualquer bem adicional solicitado pelo noivo (figueira, oliveira, etc.) poderá ser dada pelos pais da noiva só se eles tiverem condições. Nenhum acordo secreto entre o noivo e os pais da noiva terá efeito legal se não for por escrito.”

Por volta de 1850, enquanto a atividade comercial encorpava, nós também vemos uma ilha cuja prosperidade estava intimamente ligada à continuidade da tolerância dos superiores otomanos e ao acesso livre aos mares e à Anatólia. Nós também vemos uma ilha onde a riqueza aumentava nas mãos da próspera classe dos comerciantes e donos de barcos que dominavam econômica e socialmente através dos cargos de chefia que eles tinham e pelas suas íntimas relações com os padres e os letrados da ilha (morfomeni).

A proibição da construção de barcos

O primeiro real sintoma da queda da riqueza da ilha foi a proibição otomana de construção de barcos que se materializou em 1860. A proibição parece ter sido originada por vendas não autorizadas de barcos construídos na ilha a gregos armadores de Galaxidhi perto de Corinto, o que impactou profundamente a indústria naval da ilha de Kastellorizo. Um agente consular britânico, relatou assim ao ministério das relações exteriores em 1869:

A construção de barcos aqui foi em grande escala. Eram construídos anualmente 5 a 6 grandes navios e havia na época cerca de 18 unidades em estaleiro sem contar as pequenas embarcações. Mas as restrições que culminaram com a proibição total a partir de 1860 compeliram os kastellorizios a desistir da indústria que dava emprego para mais de 50 carpinteiros navais. Antes da proibição eles podiam buscar madeira no continente (Turquia) a somente 6 milhas de distância e empregar seus próprios compatriotas e gastar o seu dinheiro na ilha. Com a proibição, os kastellorizios, todos marinheiros foram forçados a ir a Syra e lá construir os barcos que precisavam a custos muito superiores.

Felizmente, o governo otomano revogou a medida que durou demais. Embora somente alguns meses tenham transcorrido desde então, somente cinco indivíduos solicitaram permissão.

Quando a proibição caiu em 1870, o mal já tinha sido realizado e as próximas décadas não testemunharam nem de perto o nível anterior de atividade de construção naval. Aliado a isso destaca-se o forte advento das viagens a vapor ao longo do Mediterrâneo que reduziram as necessidades dos barcos a vela. Portanto o reinado dos barcos a vela tinha terminado.

O começo da emigração

Não é coincidência que a primeira emigração registrada de Kastellorizo tenha ocorrido durante este período. Certamente já existiam movimentos para e do Egito, particularmente de Cairo e Alexandria (desde 1840 e especialmente a partir de 1860 com a construção do canal de Suez). Desde 1870 achamos registros de kastellorízios viajando para muito longe na África central e para leste na Ásia central. Eram intrépidos, mas nas suas viagens, mesmo sendo ao acaso, tinham sempre em mente a volta à ilha. No final desta década começaram as viagens longas e bem organizadas. O que encorajou estes emigrantes não foram somente os eventos descritos; em Creta, em 1867 e em Simi e Kalimnos em 1869 uma série de protestos contra o crescente controle otomano acarretaram violentos assédios e no mesmo ano o prefeito de Kastellorizo foi preso. Em 1874 maiores evidências de mudanças tiveram lugar quando uma ordem de Rhodes exigiu que todos os documentos oficiais fossem escritos em turco.

Entretanto em 1880 ainda subsistia nesta privilegiada ilha o sentimento de que as imposições seriam transitórias e que os dias da prosperidade sem limites persistiriam. Ironicamente, a população da ilha continuava a crescer nesse período e os locais de origem destes novos imigrantes refletia-se nos sobrenomes que eles adotavam: Nisyrios (Nisyros), Patiniotis (Patmos), Syrianos (Syros), Kotis (Kos), Spartalis (Isparta), Axiotis (Naxos), Santoriniou (Santorini), Halkitis (Halki), Karpathiou (Karpathos), Kasiotis (Kasos), Astypalitis (Astypalia), Mouglalis (Mugla) etc. Uns chegavam da Anatólia pois queriam a segurança adicional (e a liberação de impostos) que essa ilha poderia oferecer enquanto outros provinham diretamente das ilhas da Grécia buscando oportunidades de emprego.

Em 1885 indubitavelmente Kastellorizo ficou marcado pelas épicas jornadas de: Athanasios Avgustis e pelos irmãos Manolas e Jackomas para Austrália, de Savvas Savvas e Komianos Lakerdis (Comninos Lacerda) ao Brasil; famílias Tsakalis e Karazepounis para os Estados Unidos e famílias Antoniou e Mavrokordatou para o interior da África. Sentindo que a frágil economia da ilha (que se desenvolveu e colapsou tão rapidamente) estava em perigo, estes indivíduos e muitos outros vislumbraram o além mar. Entre 1890 e 1908 presenciamos uma lenta e gradual erosão da prosperidade da ilha com o êxodo primeiro dos homens e depois das mulheres buscando um futuro melhor em terras estrangeiras.

Um exemplo a mencionar é Savvas Nikolau Savvas que com 25 anos deixou Kastellorizo em 1882 e viajando via Hydra e Pireus para Bríndisi, passou por Gibraltar, atravessou o Atlântico e chegou em 27 de abril de 1883 em Montevideu (Uruguai). Ele velejou pela costa da América do Sul onde encontrou um pequeno vilarejo numa ilha que lhe fez lembrar Kastellorizo. Ele decidiu permanecer lá e retornou a Kastellorizo para trazer sua família e parentes afins. Este vilarejo tornou-se Florianópolis, na ilha de Santa Catarina, hoje uma das mais belas cidades do Brasil, onde Savvas ainda hoje é lembrado como o pai da colônia grega (Sic Paschoal A. Pítsica – Memória visual da colônia grega de Florianópolis – 2003). Ele retornou a Kastellorizo em 19 de junho de 1884, e voltou de novo para Florianópolis em 1887 (via Portugal, onde permaneceu por um ano) junto com seus parentes que constituíram a coluna vertebral da comunidade grega de Florianópolis.
A reforma traz falsas esperanças

Aconteceu uma pausa momentânea depois desse primeiro êxodo. Enquanto o império otomano lentamente se encolhia e a revolução explodia em Creta, havia um sentimento crescente nos ilhéus de que a reforma do império iria acarretar cancelamento de privilégios. Uma nova tendência liberal tomou conta da primeira década do século XX e foi-se acreditando muito que mudança significa mudar para melhor, mesmo para as minorias do império que há tempos gozavam de generosos privilégios. Foram prioritárias aos gregos as exclusões referentes ao pagamento de impostos e ao serviço militar obrigatório. Eles foram beneficiados com a liberdade de ir e vir para conduzirem o seu comércio sem interferências. Como comentou em escritor da época os privilégios pareciam resquícios de outra era, e sua extinção completa parecia muito radical na luta contra as dificuldades. Muitas pessoas resolveram esperar o momento adequado…

Em 28 de julho de 1908 quando foi proclamada a nova constituição dos Jovens Turcos, os kastellorizios mais velhos foram fotografados nas escadarias da recém construída escola Santrapeia. No centro do grupo estava o kaimakam da ilha, o nascido na ilha Moustafa Loutfi Bey, rodeado pela demogerontia (velhos do povo) e clérigos de ambas as crenças (ortodoxos e islamitas). Muitos honestamente acreditavam que era a alvorada de uma nova era para as minorias do império otomano; mas, dentro de alguns meses, muitos dos privilégios restantes foram eliminados e a emigração começou de novo em grande escala e urgentemente. Nos quatro anos seguintes com as incertezas dominantes no império face ao início das Guerras Balcânicas a população da ilha foi reduzida. Esses retirantes (90%) eram pessoas tradicionais da ilha que tinham a esperança de dar subsistência às suas famílias dirigindo-se ao exterior evitando desta forma o pagamento de impostos e o serviço militar.

A queda da ocupação otomana e francesa

A revolta de Kastellorizo contra os administradores turcos em março de 1913 não foi uma grande surpresa. Com a economia da ilha perto do colapso e com as outras ilhas do Dodecaneso agora ocupadas pela Itália e com a Anatólia tornando-se inacessível e hostil e ainda com a proximidade da Primeira Grande Guerra, que perspectivas restavam aos que ficavam em Kastellorizo? Parecia ridículo, mas os ilhéus que fizeram a revolta, sinceramente acreditavam que separar a ilha da Anatólia e alinhá-la com a nação grega, que estava imbuída excessivamente de noções ambiciosamente expansionistas, era a solução. De fato era esta a receita para a salvação da ilha. A Grécia relutou muito para que a marinha francesa chegasse em dezembro de 1915. Os gregos ficaram surpresos ao saber que os Kastellorizios já eram súbditos coloniais da maior potência europea (França), cujo inimigo principal na região não era nada menos que a Turquia.

Aproximou-se o desastre que chegou na forma de um violento bombardeio dos turcos e dos alemães em maio de 1917. A população subiu os montes mas logo eles solicitaram ao governador francês permissão para emigrar. Nos próximos 18 meses verificou-se uma corrida de pedidos para emigrar, a maioria para Austrália, onde o governo da comunidade britânica preocupava-se desnecessariamente sobre a nacionalidade grega, francesa ou turca dos imigrantes.

E quando a paz finalmente chegou, havia uma outra razão para acelerar a emigração: a gripe espanhola, que tomou conta da ilha em fevereiro de 1919. Um total de 43 pessas morreram durante o fim do inverno de 1919, dos quais 37 foram da epidemia. E os arquivos do governo francês da ilha se avolumaram com os pedidos de emigração nos meses seguintes.

Nas fotografias dos kastellorizios nos documentos de viagem franceses entre 1919 e 1919 vemos a miséria destes anos. “EPESSE KATARA” (a maldição tomou conta da ilha) é a exclamação dos ilhéus percorrendo as ruelas da ilha segundo o relato dos franceses. Os anos de prosperidade das últimas décadas do século XIX pareciam distantes de mil anos pois vidas se perderam, fortunas foram dissipadas e laços de família eram quebrados pela dor da separação.

A ocupação italiana

Em 1920 a população de Kastellorizo reduziu-se para 2500 pessoas, um quarto de vinte anos atrás. Grandes setores da cidade (vila) estavam agora desabitados seja pela emigração, seja pela destruição resultante das hostilidades. No porto, somente um pequeno número de barcos de dois mastros estavam ancorados nos meses de inverno.
A pequena mais pomposa cerimônia de transferência oficial da ilha da França para Itália em 1 de março de 1921, sinalizou somente uma breve recuperação da ilha durante a década dos 20. Certamente aconteceram benefícios tais como: melhorias das conexões marítimas, viagens de hidroavião e as importações da Itália adicionaram impulso à economia da ilha e a emigração declinou com os benefícios oferecidos pelos novos ocupantes (Itália).

Mas calamidades adicionais na forma de um devastador terremoto em 18 de março de 1926 e a declinante economia mundial acelerariam a emigração de novo e em meados de 1930 tornou-se a ilha um posto isolado e recessivo do império colonial italiano.

No início da repressão fascista de 1937 a 1939, ocorreu a nova guerra, esta agora com prejuízos e resultados perversos para este pequeno rochedo do Mediterrâneo Oriental. Na segunda guerra a ilha foi devastada e inteiramente despovoada de novo como na época da revolução grega do século anterior. Somente 1000 habitantes foram evacuados nestes frenéticos dias de outubro de 1943 e apenas 600 retornaram dois anos depois do fim da guerra.

Epílogo

Que mudanças em apenas 50 anos!

Com alegria, atualmente constatamos que esses calamitosos dias são um passado distante para nós filhos, netos e bisnetos destes intrépidos emigrantes.

Kastellorizo finalmente reivindica o resgate de todo o seu antigo esplendor à mãe Grécia, a quem hoje o seu destino está indelevelmente integrado.

“Esta tradução de Demetrios Lambros do artigo de Nick Pappas (Sydney-Austrália), é a versão apresentada em maio de 2012 no Fórum do Centenário da Associação Australiana dos descendentes de Kastellorizo”. Curitiba, 23 de abril de 2013.

Primeiras famílias gregas

  • Athanazios, Atherino;
  • Berçou;
  • Christofis,
  • Chruyssaki,
  • Chrystakis,
  • Chrystoval,
  • Comninos,
  • Constantópulos;
  • Dimatos;
  • Elias;
  • Femanis;
  • Garofal;
  • Haviaras;
  • Ikonomos;
  • Joanides;
  • Kailis,
  • Kalafatás,
  • Karabalis,
  • Katcipes,
  • Komninos,
  • Kotzias;
  • Lakierdis (Lacerda);
  • Mazarakis;
  • Pandazidis,
  • Pítsica;
  • Savas,
  • Serratines,
  • Sirydakis,
  • Spyrides,
  • Stavianou;
  • Triantafillis,
  • Tzelikis.

(Cf. Paschoal Apóstolo Pítsica, Palavras e registros, Florianópolis, 1993, no Item Contribuição para o estudo da genealogia dos gregos na Ilha de SC, p. 173-183).

Primeiras entidades

O espírito associativo e o interesse em preservar as tradições culturais e religiosas, fizeram os imigrantes gregos e seus descendentes na cidade de Florianópolis, se organizarem como entidades constituídas. Em 1920, foi criada a primeira entidade civil constituída, com a denominação de “Irmandade Grego Orthodoxa São Constantino”, homenageando o patrono da ilha de Kastelórizon, para fins religiosos e na tentativa de unir a comunidade Helênica. No entanto, por divergências internas, já que nem sempre a comunidade grega de Florianópolis comungou de um mesmo pensamento, foi fundada outra entidade no dia 26 de setembro de 1936, tendo como nome “Irmandade Grego Ortodoxa São Nicolau”, em homenagem ao santo protetor dos marítimos. Assinaram a ata de fundação e os estatutos da entidade os senhores Monsenhor João Chryssakis, como Presidente vitalício e primeiro pároco da Igreja, Jorge Haviaras como 1º Secretário, Estefano Kotzias como Tesoureiro e lconomos Agapito lconomos como sócio fundador. Os objetivos sociais desta entidade eram a construção e manutenção de um templo, erigido a São Nicolau, obedecendo os ritos e práticas da Igreja Grego Ortodoxa. Nesse mesmo ano, a Irmandade comprava o terreno e iniciava a construção do templo. Entretanto devido a desentendimentos entre os membros da Irmandade e o Monsenhor, dado a seu caráter autoritário e distante das idéias predominantes, a obra foi interrompida. Nos anos seguintes, embora a construção da igreja estivesse paralisada, as atividades da irmandade prosseguiram com missas e reuniões realizadas em um sobrado situado à rua Conselheiro Mafra, n° 43, centro de Florianópolis, que também servia como residência do Monsenhor João Chryssakis e sua família. Finalmente, as obras são retomadas e a partir de 1963, com o término da construção da Igreja de São Nicolau e do Salão Paroquial, as atividades da comunidade se concentraram na rua Tenente Silveira.

Crédito: Marilene Berretta Cardoso – 1997

Primeiro padre radicado no Brasil

Arquimandrita João Cryssakis

De forte personalidade, não era procedente de Kastelorizon, como a grande maioria dos gregos, e sim de Smirna (Turquia), que anteriormente pertencera à Grécia. Uma vez por ano, o padre percorre todas as casas dos gregos para benze-las com água benta. E no dia de “Epifania”, “dia dos Reis”, e todo o primeiro domingo do mês, os fiéis na igreja recebem o “agiasmós”, em que o padre benze os fiéis com água benta. Na “Epifania”, o padre, de batina preta, barrete na cabeça “kalimafki”, empunhando na mão direita uma longa cruz grega e uns ramos de manjericão, e na esquerda, um pequeno balde de prata com água benta, entra nas residências, aspergindo a água com os ramos de manjericão e com a cruz em nossa direção, para a beijarmos, bem como a sua mão. É um momento solene e de grande convicção. Em seguida, o padre grego senta-se à mesa para um café ou se serve de algum doce e continua a sua peregrinação. A preocupação dos gregos era a de conservar a sua religião, portanto, manter um pároco na comunidade. Assim, podemos citar a presença de inúmeros deles na comunidade:

  • Monsenhor João Chryssakis em 1925
  • Padre Panayotis Paleológos e Padre George em 1955
  • Padre Miguel Michalopulos em 1957
  • Padre Yassif em 1960
  • Padre Panagiotis Meintanis em 1966
  • Padre Constantino Paraskevaides em 1971.

O Monsenhor João Chryssakis nasceu em Smirna, em 1898 e faleceu em Florianópolis, em 30 de janeiro de 1971. Foi o primeiro padre grego a se radicar no Brasil, em 1925. Viveu em Florianópolis, durante quarenta anos e lecionou grego durante vinte e cinco anos no Instituto Estadual de Educação Dias Velho, e foi pároco da Igreja de São Nicolau durante trinta anos. Visitava os gregos nas suas datas festivas, juntamente com sua esposa e filhas.
O Padre Miguel Michalopulos exerceu as funções sacerdotais nos Estados Unidos e foi um grande entusiasta e incentivador dentro da comunidade.

O Padre Panagiotis Meintanis veio da ilha de Zakynthos e já construiu cinco igrejas ortodoxas, três na Grécia, uma em Porto Alegre e outra em Curitiba.

O Padre Constantino Parasquevaides veio da Macedônia e foi pároco da Igreja de São Nicolau de Florianópolis.

Fonte: Livro: Os Gregos no Brasil – 1983 – Savas Apóstolo Pítsica

 

A Igreja Ortodoxa Grega São Nicolau

A Igreja Grega Ortodoxa São Nicolau está situada à rua Tenente Silveira, nº 494, no centro de Florianópolis. As missas, realizadas aos domingos, das 10 às 11 horas, contribuem para manter a colônia unida e preservar as tradições. A Igreja Católica Ortodoxa, religião predominante na Grécia, é muito semelhante à Igreja Católica Apostólica Romana, da qual se separou oficialmente em 1054 d.C. “A igreja ortodoxa permite ao padre se casar, tem pinturas em vez de imagens, mas as orações são praticamente as mesmas”, diz Syriaco Spyros Diamantaras. Sua construção teve início em 1936, sob a responsabilidade da firma João Baptista Berretta & Cia. Após a interrupção de alguns anos, coube a Wildi & Rau Ltda terminá-la no ano de 1963. Sua arquitetura é simples, semelhante às demais igrejas gregas, apresentando alguns aspectos do estilo bizantino. No seu interior, observamos três partes distintas. A sagrada, denominada santuário ou ieró, o salão que abriga os fiéis e o mezanino. A parte sagrada onde está situado o altar, é separada do salão que abriga os fiéis por uma divisão sólida chamada iconostase. Nesta parede estão os ícones tradicionais da Igreja Grega Ortodoxa, obras do pintor Malinverni, natural de Lages. Outros ícones, em número de 10, foram trazidos da antiga Igreja da rua Conselheiro Mafra, e são obras do artista catarinense Eduardo Dias, e estão localizados nas paredes laterais da Igreja. À frente da iconostase, em plano superior ao salão, à direita do altar observa-se a cadeira destinada à autoridade episcopal, em visita à Igreja. Ao seu lado, em plano imediatamente abaixo, localiza-se o psalti, apoio de madeira destinado à partitura do cantor. A parte destinada aos fiéis, além dos bancos tradicionais, possui na sua entrada à esquerda um iconostásio com São Nicolau. Um evento bastante concorrido é o Lanche de São Nicolau, uma atividade beneficente realizada às terças-feiras, cada vez na casa de uma associada. A tradição mantém-se desde 14 de julho de 1951, quando Kiriaki Nicolau Spyrides ofereceu a primeira recepção a senhoras da religião ortodoxa e pessoas que falavam o grego. Nos casamentos, como de Priscila e Giovane, os noivos e convidados fazem o ritual de “quebrar pratos”, uma maneira de desejar alegria e prosperidade aos noivos. Outro costume é jogar amêndoas e dinheiro sobre o casal, para desejar-lhe doçura e riqueza. Nem sempre os descendentes optam por fazer a cerimônia tradicional, mas o casamento ecumênico permite aos parceiros e filhos obter a dupla nacionalidade. Os descendentes preservam também as datas importantes, como 25 de março, dia da Independência da Grécia em relação aos turcos otomanos, e o dia 28 de outubro, Dia do Oxi, o Dia do Não, marcando a ocasião que o primeiro-ministro grego João Metaxás opôs-se à ocupação da Grécia pela Itália na Segunda Guerra Mundial. A Páscoa, importante também para os ortodoxos, nem sempre coincide com a dos católicos romanos, pois a comemoração segue o calendário bizantino. Uma curiosidade é que o ovo usado não é de chocolate, mas um ovo comum cozido pintado de vermelho e coberto por papel celofane. “Existe um ritual em que duas pessoas pegam cada uma um ovo, fazem um pedido, e batem um contra o outro. Aquela que conservar o ovo intacto tem o desejo realizado”, diz Alceu Atherino Neves.


Geração atual: síntese de duas culturas

Absorvida pelo meio, população grega mantém tradições e agrega novos costumes.

Florianópolis – Após três ou quatro gerações desde a primeira leva de imigrantes gregos, a identidade cultural da colônia já não é tão forte, tendo ocorrido, como diz Savas Apóstolo Pítsica, uma “síntese cordial entre as duas culturas”. Para fazer a apresentação de dança da comunidade grega na Festa das Nações, em agosto passado, por exemplo, foi preciso trazer um grupo de Curitiba para apresentar o sirtáki e o kalamatianós. “Embora não tenhamos hoje um grupo de dança, estas são praticadas durante as festas”, defende Pítsica. Mesmo as missas já não têm a mesma participação da comunidade. “Infelizmente, a igreja muitas vezes fica vazia aos domingos”, diz Syriaco Spyros Diamantaras, tesoureiro da Associação Helênica. “Tentamos levar mais jovens à celebração, mas atualmente são poucos os que vão”, afirma Augusto Atherino Neves, de 22 anos. O idioma, muito freqüentemente usado em conversas nos cafés freqüentados pelos gregos das primeiras gerações, hoje raramente é falado. “Poucos conhecem a língua. A terceira geração mal sabe dar bom dia”, diz Diamantaras. O jovem Augusto Neves já fez aula de grego na Associação Helênica, mas não domina o idioma. “Consigo compreender algumas expressões, mas manter uma conversação é difícil”. Segundo Pítsica, que atualmente ministra os cursos da língua no salão paroquial da igreja, “os descendentes, especialmente os das primeiras gerações, geralmente falam o grego, e o utilizam para conversar em casa. Os mais jovens muitas vezes não falam, mas entendem um pouco e conseguem assimilar rapidamente, pois ouviam o grego em casa.” Uma tradição marcante que está se perdendo é o comércio. Os gregos já tiveram a hegemonia no atacado de secos e molhados realizado no centro da cidade, em que eram vendidos produtos importados, vinhos, bacalhau, azeite, charque, frutas natalinas. Porém, hoje resta apenas a Kotzias Presentes & Utilidades, na Conselheiro Mafra, e ainda assim a loja está prestes a ser vendida. “Antes a rua toda era ocupada pelos comerciantes gregos. A maioria fechou por causa da concorrência com as grandes redes”, diz Estefano Kotzias, proprietário. Em outros segmentos, poucas lojas, como a Casa Kotzias, de tecidos, fundada em 1910, mantêm-se prósperas. Os descendentes dos gregos estão migrando para outras atividades econômicas. “Hoje são quase todos profissionais liberais. A maioria agora trabalha dentro dos consultórios como médico, advogado ou engenheiro”, diz Pítsica, que tem vários parentes nesses segmentos. Embora em seu livro “Os Gregos no Brasil” diga que o núcleo começa a mostrar sinais de desagregação, Pítsica não considera que a comunidade esteja sofrendo aculturação. “Os gregos não estão perdendo seus valores, até porque muitos ainda são da primeira geração. Meus pais vieram de Kastelórizon. Ainda é cedo para fazer uma análise”, diz. A colônia de Florianópolis não recebeu novas levas de imigrantes, e atualmente deve ter cerca de 200 famílias. Alguns membros da comunidade mudaram-se para cidades como Curitiba e Paranaguá, ambas no Paraná e onde formaram-se novas colônias. Já os gregos de outras regiões do Brasil, como São Paulo e Brasília, geralmente são provenientes de correntes migratórias distintas. “Há 30 anos a colônia em Florianópolis era bem maior. Talvez porque cerca de 90% dos integrantes vieram de Kastelórizon, cuja população se dispersou, não houve renovação de gregos aqui”, diz Diamantaras. Além disso, muitos descendentes se misturaram a famílias de outras origens e mudaram seus nomes. “Devemos ressalvar que miscigenação não significa aculturação. A população grega está sendo naturalmente absorvida pelo meio, o que acho ótimo. Mesmo a Grécia é formada por várias etnias, que ajudaram a formar seu tecido social. Essa miscigenação social fortalece uma raça”, diz. Os descendentes visitam a Grécia quando possível, mas após a adoção do euro a viagem encareceu bastante. Antes da unificação monetária, a Grécia era um dos países europeus mais baratos para o turismo. “Já fui cinco vezes, mas depois do euro não sei quando poderei ir outra vez”, diz Diamantaras. “Eu e meu irmão ainda não fomos ainda. Sei que o governo grego dá bolsas de viagem e estudo a descendentes, e espero conhecer o país assim que possível”, diz Alceu.


Fonte: http://www1.an.com.br/2003/set/21/0ane.htm