Irmãos bem-amados, Jesus Cristo, Nosso Senhor e Deus, não Se contentou em ensinar a paciência por palavras; também a demonstrou pelos Seus actos. […] Na hora da paixão e da cruz, quantos sarcasmos ultrajantes escutados com paciência, quanta troça injuriosa suportada, ao ponto de ser cuspido, Ele que, com a Sua própria saliva, tinha aberto os olhos a um cego (Jo 9, 6) […]; de Se ver coroado de espinhos, Ele que coroa os mártires com flores eternas; de Lhe baterem na face com as palmas das mãos, a Ele que concede palmas verdadeiras aos vencedores; despojado das Suas vestes, Ele que reveste os outros de imortalidade; alimentado com fel, Ele que dá o alimento celeste; dessedentado com vinagre, Ele que dá a beber o cálice da salvação. Ele, o inocente, Ele, o justo, ou antes, Ele, que é a própria inocência e a justiça, é contado entre os malfeitores; falsos testemunhos esmagam a Verdade; Aquele que deverá ser o juiz é submetido a julgamento; a Palavra de Deus é conduzida ao sacrifício, calando-Se. A seguir, quando os astros se eclipsam, quando os elementos se perturbam, quando a terra treme, […] Ele não fala, não Se mexe, não revela a Sua majestade. Suporta tudo até ao fim com uma constância inesgotável, para que a paciência completa e perfeita tenha o seu auge em Cristo.

E, depois de tudo isto, ainda acolhe os Seus carrascos, se se converterem e se se voltarem para Ele; graças à Sua paciência […], Ele não fecha a Sua Igreja a ninguém. Aos adversários, aos blasfemos, eternos inimigos do Seu nome, não apenas lhes concede o perdão, se se arrependerem das suas faltas, mas ainda os recompensa com o Reino dos Céus. Quem poderíamos indicar de mais paciente, de mais benevolente? A mesma pessoa que derramou o sangue de Cristo é vivificada pelo sangue de Cristo. Tal é a paciência de Cristo, e se não fosse tão grande como realmente é, a Igreja não teria o Apóstolo Paulo.)

Imitar a paciência de Deus

Como é grande a paciência de Deus! […] Ele faz com que o dia nasça e com que o sol se levante tanto para os bons como para os maus (Mt 5,45); Ele rega a terra com as chuvas e ninguém fica excluído da Sua benevolência, uma vez que a água é dada indistintamente aos justos e aos injustos. Vemo-Lo agir com igual paciência para com os culpados e para com os inocentes, os fiéis e os ímpios, aqueles que Lhe dão graças e os ingratos. Para todos eles os tempos obedecem à voz de Deus, os elementos colocam-se ao Seu serviço, os ventos sopram, manam as fontes, as colheitas aumentam de abundância, a uva amadurece, as árvores carregam-se de frutos, as florestas reverdecem e os prados cobrem-se de flores. […] E embora Ele tenha o poder de Se vingar, prefere esperar muito tempo com paciência e aguarda e adia com bondade para que, se for possível, a malícia se esbata com o tempo e o homem […] se volte enfim para Deus, segundo o que Ele mesmo nos diz: «Não tenho prazer na morte do ímpio, mas sim na sua conversão, a fim de que tenha a vida» (Ez 33,11). E ainda: «Voltai-vos para Mim, regressai para o Senhor vosso Deus, porque Ele é misericordioso, bom, paciente e compassivo» (Jl 2,13). […]

Ora, Jesus diz-nos: «Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste» (Mt 5,48). Por estas palavras Ele nos indica que, sendo filhos de Deus e regenerados por um nascimento celeste, atingimos o cume da perfeição quando a paciência de Deus Pai permanece em nós e a semelhança divina, perdida pelo pecado de Adão, se manifesta a brilha nos nossos actos. Que grande glória a nossa, a de nos assemelharmos a Deus, que grande felicidade, termos essa virtude digna dos louvores divinos!

São Cipriano (c. 200-258), Bispo de Cartago e mártir
Os benefícios da paciência, 7 (a partir da trad. de SC 291, p. 199 rev.)
Fonte: Evangelho Cotidiano
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