«Quem perder a sua vida por Minha causa, há-de encontrá-la»

Aquele que está abrasado do amor de Deus não ambiciona outra coisa, não procura ganho nem recompensa, não aspira senão a tudo perder e a perder-se a si mesmo, no que se refere à vontade, por amor do seu Deus. A seus olhos, está aí o verdadeiro ganho. De facto assim é, de acordo com a palavra de São Paulo: «morrer é uma vantagem» (Fil 1, 21), isto é, a minha morte por Cristo é o meu ganho; morrer espiritualmente para todas as coisas e para mim mesmo é o meu ganho. É por esse motivo que, neste verso do poema, a alma se serve daquela expressão: «Fui ganha». Com efeito, o que não sabe perder-se não se ganha; perde-se, de acordo com esta palavra de nosso Senhor no Evangelho: «Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la».

Se quisermos compreender este verso de maneira mais espiritual […], diremos isto: quando uma alma chegou, no seu caminho espiritual, ao ponto de perder todas as vias e todas as formas naturais de lidar com Deus; quando já não O procura pelas reflexões ou pelas imagens, nem pelo sentimento, nem por qualquer meio derivado dos sentidos e das coisas criadas; mas, ultrapassando tudo isso, deixando toda a maneira pessoal e toda a mediação, seja ela qual for, se relaciona com Deus e Dele goza pela fé e pelo amor, pode dizer-se então que encontrou verdadeiramente a Deus, porque na verdade perdeu tudo o que não é Deus e ela própria se perdeu verdadeiramente.

São João da Cruz (1542-1591), carmelita, Doutor da Igreja
Cântico Espiritual, 20 (a partir da trad. OC, Cerf 1990, p. 452 rev.)
Fonte:
Evangelho Cotidiano

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