Ao aproximar-se de Jesus, a Cananeia só diz estas palavras: «Tem piedade de mim» (Mt 15,22), mas os seus gritos atraem um grande número de pessoas. Era comovente ver uma mulher gritar com tanta emoção, uma mãe implorar pela sua filha, uma criança duramente maltratada. […] Ela não diz: «Tem piedade da minha filha», mas: «Tem piedade de mim». «A minha filha não se apercebe do seu mal; eu, pelo contrário, experimento mil sofrimentos, fico doente ao vê-la naquele estado, quase enlouqueço por vê-la assim». […]

Jesus responde-lhe: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel» (Mt 15,24). Que faz a Cananeia depois de ter escutado estas palavras? Vai-se embora em silêncio? Perde a coragem? Não! Insiste ainda mais. Ora, não é isso que nós fazemos: quando não somos atendidos, retiramo-nos desanimados, quando devíamos insistir com mais ardor. Na verdade, qualquer um ficaria desanimado com a resposta de Jesus. Bastaria o seu silêncio para eliminar toda a esperança. […] Mas esta mulher não perde a coragem; pelo contrário, aproxima-se mais e prostra-se dizendo: «Socorre-me, Senhor. […] Se eu fosse um cãozinho nesta casa, já não seria uma estrangeira. Sei muito bem que a comida é necessária aos filhos […], mas não se pode proibi-los de darem as migalhas aos cães. Não mas deves recusar […], porque eu sou o cãozinho que não se pode mandar embora».

Sabendo a resposta que ia dar-lhe, Jesus tarda em corresponder à sua oração. […] As suas respostas não se destinavam a fazer sofrer esta mulher, mas a revelar o tesouro escondido da sua fé.


São João Crisóstomo (c. 345-407)
Homilias sobre o Evangelho de Mateus, n.º 52, § 2
Fonte: Evangelho Cotidiano

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