«Abraão era muito rico», diz-nos a Escritura (Gn 13,2). […] Abraão, meus irmãos, não era rico devido a si próprio, mas devido aos pobres; pois em vez de guardar a sua fortuna, partilhava-a. […] Este homem, ele próprio estrangeiro, não cessou de tudo fazer para que os estrangeiros deixassem de se sentir estrangeiros. Vivendo numa tenda, não podia suportar que alguém passasse sem abrigo. Perpétuo viajante, acolhia todos os hóspedes que apareciam. […] Em vez de repousar na generosidade de Deus, sabia-se chamado a reparti-la: usava-a para defender os oprimidos, para libertar os prisioneiros, para arrancar ao seu destino homens que estavam para morrer (Gn 14,14). […] Na presença do estrangeiro que recebe (Gn 18,1s), Abraão não se senta, permanece de pé. Não é conviva do seu hóspede, faz-se seu servidor; esquece que em sua casa é ele o senhor, traz ele próprio os alimentos e, preocupado com uma preparação cuidada, pede ajuda à mulher. Quando é para si, deixa-se tratar pelos empregados, mas confia o estrangeiro que recebe à sabedoria da esposa.

Que direi ainda, meus irmãos? É uma delicadeza tão perfeita… que atraiu o próprio Deus para a casa de Abraão, que O forçou a ser seu hóspede. Assim veio a Abraão, repouso dos pobres, refúgio dos estrangeiros, Aquele que, mais tarde, haveria de dizer-Se acolhido na pessoa do pobre e do estrangeiro: «Tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; fui estrangeiro e recebestes-Me» (Mt 25,35).

E lemos ainda no Evangelho: «O pobre morreu e foi colocado pelos Anjos ao lado de Abraão». É natural, meus irmãos, que Abraão até no seu repouso acolha todos os santos, e até na sua beatitude se ocupe do seu serviço de hospitalidade. […] Pois não se sentiria plenamente feliz se, mesmo na glória, não continuasse a exercer o seu ministério de partilha.


São Pedro Crisólogo (c. 406-450)
Sermão 122, sobre o rico e Lázaro
Fonte: Evangelho Cotidiano

 
 

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