Pedro e João acorrem juntos ao túmulo. O túmulo de Cristo é a Sagrada Escritura, em que os mistérios mais obscuros da Sua divindade e da Sua humanidade se encontram protegidos, se assim ouso expressar-me, por uma muralha de rocha. Mas João corre mais depressa do que Pedro, porque o poder da contemplação totalmente purificada entra nos segredos das obras divinas com um olhar mais penetrante e mais vivo do que o poder da acção, que ainda tem necessidade de ser purificada.

Mas Pedro é o primeiro a entrar no túmulo; João segue-o. Correm os dois e entram os dois. Aqui, Pedro é a imagem da fé, João representa a inteligência. […] A fé tem, pois, de ser a primeira a entrar no túmulo, imagem da Sagrada Escritura, onde a inteligência entra a seguir. […]

Pelo poder da fé e das virtudes, Pedro, que também representa a prática das virtudes, vê o Filho de Deus encerrado de maneira inefável e maravilhosa nos limites da carne. Por sua vez, João, que representa a mais elevada contemplação da verdade, admira o Verbo de Deus, perfeito em Si mesmo e infinito na Sua origem, ou seja, em Seu Pai. Conduzido pela revelação divina, Pedro contempla simultaneamente as coisas eternas e as coisas deste mundo, unidas em Cristo. João contempla e anuncia a eternidade do Verbo, para dá-Lo a conhecer às almas crentes.

Afirmo, pois, que João é uma águia espiritual de voo rápido, que vê a Deus; e chamo-lhe teólogo. Ele domina toda a criação, visível e invisível, ultrapassa todas as faculdades do intelecto, entra divinizado em Deus, que o faz partilhar da Sua própria vida divina.          

João Escoto Erígena (?-c. 870), beneditino irlandês
Homilia sobre o Prólogo de São João, §2
 (trad.
Jean Expliqué, DDB 1985, p. 27 rev.)
Fonte: Evangelho Cotidiano

 

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