Já não servos, mas amigos (Jo 15,15)

A Lei foi promulgada para escravos, a fim de educar a alma para as coisas exteriores e corporais, levando-a como que acorrentada à docilidade aos mandamentos, a fim de que o homem aprendesse a obedecer a Deus. Mas o Verbo de Deus libertou a alma; e ensinou-a a purificar, de livre vontade, também o corpo. Portanto, era preciso que fossem retiradas as correntes da servidão, graças às quais o homem se pudera formar, e de futuro ele seguisse a Deus sem correntes. Mas ao mesmo tempo […] era preciso reforçar a submissão ao Rei, a fim de que ninguém voltasse para trás, mostrando-se indigno do seu Libertador. […]

Por isso, o Senhor não nos ordenou que não cometêssemos adultério, mas que nem sequer cobiçássemos; não nos ordenou que não matássemos, mas que nem sequer nos encolerizássemos; não nos ordenou simplesmente que pagássemos a dízima, mas que distribuíssemos todos os bens pelos pobres; não quis que amássemos apenas os que nos são próximos, mas também os nossos inimigos; e que não fôssemos apenas «generosos e dispostos a partilhar» (1Tm 6,18), mas que déssemos amavelmente os nossos bens aos que querem ficar-nos com eles. […]

Assim, Nosso Senhor, a Palavra de Deus, começou por comprometer os homens numa servidão em relação a Deus e em seguida libertou os que se Lhe tinham mostrado submissos. Como Ele próprio disse aos seus discípulos: «Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; chamei-vos amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vo-lo dei a conhecer» (Jo 15,15). […] Ao fazer dos seus discípulos amigos de Deus, mostra claramente que Ele é o Verbo, a Palavra de Deus. Porque foi por ter seguido o seu apelo espontaneamente e sem correntes, na generosidade da sua fé, que Abraão se tornou «amigo de Deus» (Is 41,8).


Santo Ireneu de Lyon (c. 130-c. 208)
Contra as heresias, IV, 13, 2-4
Fonte: Evangelho Cotidiano

 
 

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