Não nos deixemos consumir pelas preocupações que nos causam as necessidades do corpo. Acreditemos em Deus com toda a alma, como dizia um homem bom: «Confiai-vos ao Senhor e recebereis a sua confiança.»

Mas, se hesitas e não crês ainda que Ele vela sobre ti para te alimentar, pensa na aranha e nas suas diferenças em relação ao homem. Sim, refiro-me à aranha, que é o mais débil e mais pobre de todos os seres. Nada tem de seu, não exige, não discute, não acumula, […] não se mete nos assuntos dos outros, tratando apenas dos seus, faz o seu trabalho num estado de serenidade e de calma, não se dirigindo àqueles que veneram a ociosidade senão para lhes dizer: «Quem não trabalha que também não coma» (2Tess 3,10). E o Senhor, do alto dos Céus, vê aquilo que é humilde (cf Sl 112,5-6, LXX) – e não há nada mais humilde que uma aranha – e, estendendo a sua providência sobre ela, envia todos os dias um pouco de alimento à sua morada, fazendo-lhe cair na teia os insetos de que ela precisa.

Uma pessoa que seja escrava da voracidade poderá dizer: «É que eu como muito e, como gasto muito, tenho de me dedicar a múltiplos negócios» (cf 2Tim 2,4). Tal homem deverá pensar nas enormes baleias que passam a sua existência no oceano Atlântico, onde são abundantemente alimentadas por Deus e nunca passam fome. Assim, pois, é Deus que alimenta, tanto o que come muito como o que come pouco. Ao ouvires estas coisas, tu também que tens um estômago amplo e vasto, confia-te inteiramente a Deus e à fé. E não sejas incrédulo, mas crente (cf Jo 20,27).


João Carpátio (século VII) – monge e bispo
«Capítulos de exortação», 47-48

 
 

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