«Abraão apanhou a lenha destinada ao holocausto, entregou-a ao seu filho Isaac e, levando na mão o fogo e o cutelo, seguiram os dois juntos. Isaac disse a Abraão, seu pai: […] “Levamos fogo e lenha, mas onde está a vítima para o holocausto?” Abraão respondeu: “Deus proverá quanto à vítima para o holocausto, meu filho”» (Gn 22,6-8). Esta resposta de Abraão, que é simultaneamente exata e prudente, impressiona-me. Não sei o que foi que ele viu em espírito, porque a verdade é que não é do presente que está a falar, mas do futuro, quando diz: «Deus proverá». O filho interroga-o sobre o presente, mas Abraão responde-lhe no futuro. É que o próprio Senhor havia de prover ao cordeiro, na pessoa de Cristo. […]

Abraão, «estendendo a mão, agarrou no cutelo, para degolar o filho». Comparemos estas palavras com as do apóstolo Paulo quando diz que Deus «nem sequer poupou o seu próprio Filho, mas O entregou por todos nós» (Rom 8,32). Vede com que magnífica generosidade Deus rivaliza com os homens: Abraão ofereceu um filho mortal, que não viria a morrer, enquanto Deus entregou à morte, pelos homens, um Filho imortal. […]

«Erguendo Abraão os olhos, viu então um carneiro preso pelos chifres a um silvado». Cristo é o Verbo de Deus, mas «o Verbo fez-Se carne» (Jo 1,14). […] Cristo sofre, mas sofre na sua carne; é levado à morte, mas é a carne que passa por essa morte, a carne da qual o carneiro é um símbolo. Como dizia São João: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo» (Jo 1,29). Pelo contrário, o Verbo permaneceu na incorruptibilidade; Ele é Cristo segundo o espírito, do qual Isaac é imagem. É por isso que é simultaneamente vítima e sumo-sacerdote; porque, segundo o espírito, oferece a vítima a seu Pai, e, segundo a carne, é Ele próprio oferecido no altar da cruz.


Orígenes (c. 185-253)
Homilias sobre o Gênesis, VIII, 6, 8, 9; PG 12, 206-209
Fonte: Evangelho Cotidiano

 
 

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