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Um novo monaquismo

Da obra «El Sicômoro: Santos Ortodoxos do Século XX»

Clara Cortazar Goettmann

monaquismo não se define por seu modo de vida: o monastério ou o deserto. Não! O monaquismo se define fundamentalmente pelos votos pronunciados no momento da tonsura. Todo o resto é envoltura histórica, que pode e deve mudar, tem um valor relativo, e que contribui para melhor observar (cumprir) os votos monásticos.

Esses votos são três: obediência, castidade e pobreza. Se o monge os observa, observa também o monaquismo; se o monge não os obedece, não cumpre sua vocação monástica. O fato de estar ou não em um monastério não muda nada!

O voto de castidade sempre foi compreendido de maneira perfeitamente clara. As condições históricas não tiveram nenhum efeito sobre sua observância. Portanto, não é a castidade o que constitui a novidade das orientações que o monaquismo se vê obrigado a aceitar.

Nestes últimos séculos, os dois outros votos evoluíram em  sentidos opostos. Toda  ênfase foi posta, então, no voto da obediência, ou seja a renúncia da vontade própria. Ao contrário, o voto de pobreza se simplificou e se reduziu ao simples abandono da avareza, ou no melhor dos casos, à renúncia da propriedade material, a  ponto de perder toda a dimensão espiritual.

A relevância do voto de obediência se explica pelo desenvolvimento importante da instituição do “starets”, no monaquismo russo, no final do século XVIII. O “starets” exerce uma espécie de direção espiritual muito atenta, que supõe , por parte do noviço, o abandono total de sua vontade entregue às mãos do padre espiritual. Não é apenas uma questão de disciplina – indispensável à vida comunitária -, de observância de regras ou de aceitação honesta e responsável de seus deveres.

Pelo contrário, a responsabilidade está ausente; as obrigações derivam não da divisão das tarefas comunitárias, mas do cumprimento cego e sem murmuração da vontade do “starets”. Só uma coisa exige-se do monge: que não tenha vontade própria, nem raciocínio, nem juízo, nem pretensão de subir na hierarquia. Pois a vontade, o raciocínio e o juízo correspondem exclusivamente ao “starets” e o monge deve executar suas decisões.

Não cabe a mim examinar esse princípio, mas simplesmente sublinhar que a obediência requer uma condição absoluta: que exista o “starets” a quem se possa obedecer. Sem “starets” não há obediência. Entretanto, devemos afirmar fortemente que nas condições atuais, praticamente não há mais “starets”. Não há o porque se espantar. Na Rússia, de milhares de monges, se fizeram alguns poucos “starets” autênticos, cuja reputação se difundia por todo o país. Atualmente, devemos buscá-los entre algumas dezenas de monges e as possibilidades de eleição ficam extremamente reduzidas.

Hoje, a vida coloca os monges diante de todo o tipo de decisões e lhes exige ser responsáveis desde os primeiros dias de sua tonsura. De fato, os monges descobrem que são autônomos, que estão quase abandonados. Nesses condições seria absurdo e artificial querer restaurar a todo custo a instituição do “starets”. Se a obediência, desde seu princípio, segue sem mudanças, no entanto, seu sentido muda. O monge hoje deve ser obediente à obra eclesial para a qual foi consagrado, deve pôr toda a sua vontade e todas as suas forças criadoras a serviço da obra. A obediência se converte em serviço. E esse serviço, fundamentalmente, não deve ser menos rigoroso que a obediência a um “starets”. A única diferença é que aqui a responsabilidade é do próprio monge. É ele quem mede seu espírito de sacrifício e de abandono. É a igreja que se converte em seu “starets” e que o julga. Sua obediência, consiste em cumprir de maneira responsável a obra que a Igreja lhe confiou.

Fica o terceiro voto, o da pobreza. O voto da pobreza não pode ser reduzido nem simplificado. Ao contrário, deve ser meditado em profundidade. A pobreza, a idéia de “não–aquisição”, não deve ficar limitada ao plano material unicamente. Pois um pobre, um homem livre do apego ao dinheiro, pode ser ao mesmo tempo um possuidor de bens espirituais.

O que é particularmente contrário à “não-aquisição”? O egoísmo, que é a enfermidade de nosso século, é visto mais como a avareza e a avidez materiais que por suas manifestações espirituais. Há manifestações de egocentrismo em todos os planos - exterior e interior, material e espiritual – e também na vida religiosa. Quanto mais sutil for, mais relacionado está com as esferas elevadas do espírito humano. Quanto mais sutil for a “não-aquisição”, mais o homem renuncia aos grandes valores espirituais, dando sua vida pelos amigos o que corresponde o que Cristo exige.

Naturalmente o monge deve estar privado de toda propriedade material e, se a tiver, deve ser capaz de não valorizá-la. Um monge não deve apegar-se a nada que o seja útil, goste, console ou o edifique. Sua atitude, em todos esses planos deve definir-se por sua capacidade por doar-se, sacrificar-se, deixar-se crucificar pelos outros. Deve renunciar sua espiritualidade própria, exclusiva. Dito de outro modo, deve pôr totalmente seu espírito a serviço da obra de Deus na terra. A pobreza em espírito é, na realidade, o único caminho que permite a vida comunitária nesse grande organismo que é a Igreja: a catolicidade.

Por tanto, é completamente falso pensar que o monge deve constantemente preservar sua “cela interior”, seu “santo dos santos”; igualmente é falso pensar que um monge quando se doa, deve conservar o que é essencial. Não! Em primeiro lugar, o monge deve dar o essencial, como um sacrifício, recordando Aquele que está na origem de sua vida ascética – o próprio Salvador que levou sobre a cruz toda sua divindade e toda a sua humanidade, que se entregou inteiro por sacrifício e que espera isso, precisamente, dos que seguem seus caminhos.

De tudo isso deduzimos o seguinte: a necessidade para o monge de ser ativo no mundo exterior. A condição, contudo, de não esquecer nunca que todas as formas de atividade – trabalho social, beneficência, ajuda espiritual – tem sentido se surgirem de um desejo de consagrar suas forças à obra de Cristo, à humanidade de Cristo. Não devemos adquirir, mas dissipar, para a glória de Deus.

Esta nova concepção do voto da “não-aquisição” deve, a meu entender, definir o caminho do monge contemporâneo. Assim, o monaquismo pode adquirir um rosto novo, pouco habitual; um caminho puramente exterior na medida em que segue fundado nos votos tradicionais que determinam a essência da ascese monástica .


Fonte:

Goettmann, Clara Cortazar – El Sicômoro: Santos Ortodoxos do Século XX. 2005, pp.57-60
Tradução: Pe. Pavlos, Hiromonge

 

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