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Peregrinando para Deus

Sérgio N. Bolshakov

Conteúdo:

1. Prefácio

2. Konevitsa: O Monge Doroteu

3. Dionisiou: O Padre Eutimio

4. Vilmuason: O Padre Tijon

5. Monastério de Pskov-Petchersky: O Arquimandrita Antônio

6. Nierko-Iervi: Nina S. Nicolaevna

7. Monastério de Alexander Nievsky: O Staretz Basílio

8. Monastério de Pskov-Petchersky: Eugênio Nicolaevich Rozov

9. Monastério Novo Valaam: O Monge Mijail

10. Província de Niyegorodskaia: Maria Nicolaevna

11. Monastério Novo Valaam: O Abade João do Novo Valaam

12. Monastério São Pantaleímon do Monte Athos: O Padre Misail

13. Iuriev: Sérgio Mironovich Paul

14. Pequeno Glossário

1. Prefácio

ste livrinho foi escrito principalmente pelos que praticam a Oração de Jesus. Nele exponho minhas conversas com eles, em épocas distintas e em diversos lugares. Há tão poucas pessoas que se dedicam a estas práticas, ou que a elas se dedicaram, entre os mortos, que julgo que seu número não passa de trinta. No livro refiro-me somente aos que morreram, com exceção de algumas piedosas mulheres que figuram com indicação de que ainda estão vivas.

Sem querer julgar ninguém, escolhi somente os que tinham alcançado o silêncio interior, em grau maior ou menor. Nesta virtude se distinguiu especialmente Sérgio Mironovich Paul. Escolhi doze pessoas, das quais sete são monges, três leigos próximos ao monacato e duas mulheres, ambas mães de família. O staretz Mijail, do Monastério de Novo Valaam, me forneceu preciosas indicações, e também me ajudaram muito o arquidiácono Arcádio, o abade João, o monge Doroteu e outros.

Através destas conversações pode ver-se que sentido dão os que rezam a Oração de Jesus, a alguns termos como: "serenidade", "silêncio interior""tentação espiritual", etc.

As conversações foram tiradas em parte de meu diário, e em parte foram reconstituídas de memória. Dedico-as a todos eles.

Glória a Deus por tudo!

2. Konevitsa: o monge Doroteu 

Em 1951, passei algumas semanas em Konevitsa, no longínquo Norte, vivendo como anacoreta numa choça situada no meio do bosque.

Era final de julho. Os dias transcorriam lânguidos e ensolarados entre bosques e lagos, lagos e bosques. O mosteiro era pequeno, com poucos irmãos, e todos entrados em anos. Lembro-me mais do Padre Doroteu, ao qual um dia perguntei:

- Como devo agir para conseguir a paz espiritual?

- É necessário serenar-se - respondeu sorrindo o Padre Doroteu.

 - E que quer dizer "serenar-se"? - tornei a perguntar.

- Posso explicá-lo assim: quando era jovem noviço em Valaam, meu staretz me disse um dia: "Dmitri, é difícil você serenar-se porque seu natural é demasiado inquieto, alegre e volúvel. Se você não serenar-se, a vida monástica não lhe servirá de nada". Então lhe perguntei, exatamente como você acaba de fazê-lo: "Que quer dizer serenar-se?" Meu staretz respondeu-me: "  - muito simples. Agora estamos no verão e você espera que chegue o outono para que o trabalho do campo diminua". " - verdade, padre". "Muito bem. Virá o outono e você esperará depois o inverno, a Quaresma e Todos os Santos e, quando chegarem, você esperará a primavera, a Páscoa e a Ressurreição gloriosa do Senhor. Não é mesmo?" - "É verdade, padre". - "Olhe, pois. Agora você é noviço. Não é verdade que espera a época da tomada de hábito?" - "Sim, padre". - "E logo você esperará receber as ordens e ser abade. Tudo isto quer dizer que você ainda não conseguiu serenar-se. Quando lhe forem iguais a primavera ou o outono, o verão ou o inverno, a festa dos Santos ou a Páscoa, ser noviço ou monge e você viver cada dia com as suas preocupações, você já não se preocupará, nem esperará, e cumprirá totalmente a vontade de Deus. Então você se terá "serenado".

Passaram muitos anos, recebi o hábito, fui abade e sempre esperava algo. Transferiram-me para a cozinha, não quis ir e revoltei-me, mas tive que submeter-me. Mas quando me mandaram para cá, vim alegremente, enquanto outros choravam. Em tudo deve cumprir-se a vontade de Deus. Se você a aceitar de bom grado e com amor, e não confiar em suas próprias fantasias, você terá conseguido serenar-se. Mas você ainda está longe disso, Sérgio Nicolaevich. Você ainda se busca a si mesmo e sem serenidade não se consegue a "oração pura".

- Padre Doroteu, diga-me: que é a "oração pura"?

- É a oração sem pensamentos; quando estes não se dispersam, a atenção não se dissipa e o coração está alerta. Significa estar enternecido e com profundo temor. Mas quando você ora com os lábios e seus pensamentos estão longe, não há oração.

 - E como se consegue a oração pura?

- Consegue-se com o trabalho, certamente. Você já ouviu falar da oração de Jesus?

- Sim.

- E já se exercitou nela?

- Sim, exercitei-me.

- E como foi?

- Mal.

- Não se desespere. Tente outra vez e, a seu tempo, você conseguirá.

- E como saberei que consegui a oração pura?

O Padre Doroteu olhou-me com olhos penetrantes e me perguntou:

- Você ouviu falar do staretz da Moldávia?

- Não.       

- O monge Partênio escreve sobre ele em sua obra intitulada "Peregrinações".  Você não a leu?

- Não.

- Leia-a. É útil e ensina muito. Um dia Partênio lhe perguntou sobre a oração pura e o staretz João lhe contou seus progressos na oração de Jesus, com grande dificuldade no princípio, porém com mais facilidade depois. Mais adiante a oração começou a fluir como um regato e, por último, brotava sozinha como um murmúrio que comovia o coração. Então ele se afastou do povo e retirou-se ao deserto e deixou de receber, não somente os leigos, mas também os monges. Ao mesmo tempo, apareceu nele uma tendência invencível para a oração. E quando Partênio lhe perguntou: - "Que é a oração contínua?" ele respondeu: "Comecei a orar quando o sol se punha, e quando voltei a mim, o sol estava alto no céu e eu não o tinha notado". Esta é a oração pura.

- Quisera saber, Padre Doroteu, se a oração pura é necessária para a vida ativa, por exemplo, na atividade missionária.

- Sim, é muito útil. Quando a alma progride na oração de Jesus, dizem que se parece com a tília que, quando não tem flores, as abelhas não se lhes  aproximam, mas quando florescem, o aroma as atrai de todas as partes. O mesmo ocorre com os que estão fortalecidos com a oração de Jesus. Assim, o aroma da oração dos justos atrai de todas as partes as pessoas boas que desejam aprendê-la. Ao que vive em Cristo, Deus o leva nas suas mãos e nada deve preocupá-los. As pessoas acodem de todos os lados, tratando-o como a menina dos olhos. Praticando a virtude da verdadeira oração à sombra do Senhor, se descansa e já não existe nenhuma preocupação. Cada coisa vem a seu tempo.

 - Há sofrimento?

- E como não há de haver? Mas o sofrimento se transforma em alegria. Você ainda não entende isto porque ainda está longe, mas chegará o tempo em que você o compreenderá.

- Padre Doroteu, uma pessoa pode salvar-se no mundo?

- Por que não? O reino de Deus está dentro de nós quando nos prostramos interiormente diante do Senhor e elevamos até o Senhor o hino bendito da oração pura. Você leu "Relatos de um Peregrino"?

- Sim. Li-o.

- Bom, você pode fazer o mesmo. Nemitov Orlovskiera um rico comerciante a quem o staretz Macário de Optina admirava pela sua oração. Depois se retirou para a solidão, quando se sentiu fortalecido nela. Ao que vive unido com Deus e começa a conhecer as alturas do espírito, torna-se difícil permanecer no mundo. Como a águia plana no alto do céu e não pode assemelhar-se às galinhas que se sacodem na poeira do caminho.

Estávamos sentados na margem tranqüila do lago. No céu azul flutuavam, como plumas, umas nuvens brancas. O sol se punha e os altos troncos dos pinheiros ardiam como círios aos raios do sol poente. O lago dourado, na verde moldura dos bosques, era como um espelho. Reinava um silêncio profundo no Norte longínquo. 

Ouça, amigo, observou o Padre Doroteu, quando o seu coração se parecer com a tarde de hoje, com seu silêncio e com sua paz, então você será iluminado pela luz do sol que não tem ocaso e entenderá por experiência o que é a oração pura.

- Padre Doroteu - perguntei-lhe depois de um momento de silêncio - como se pode conhecer a vontade de Deus sobre nós?

- Dizem os Padres espirituais que as mesmas circunstâncias da vida o vão mostrando. Depois, pode-se perguntar com fé a algum staretz ou a alguma pessoa que seja capaz e, finalmente, deve-se seguir a inclinação do coração. Rogue ao Senhor três vezes para que lhe mostre a sua vontade, como fez o Salvador no Getsêmani, e proceda como lhe indicar o coração.

3. Dionisiou: o Padre Eutímio

No final de outubro de 1951, passei alguns dias no mosteiro grego de Dionisiou. Ali conheci um grego de Sicón que tinha vivido no Cáucaso (Rússia), e se tinha retirado para o Atos durante o período da guerra civil. Chamava-se Eutímio, tinha sessenta anos e se destacava pela sua sabedoria. Era o bibliotecário do mosteiro e pude manter com ele conversas maravilhosas.

Uma tarde estávamos sentados na pequena sacada de sua cela, que dava para o mar. Era um outono lânguido e tranqüilo e o sol se punha no ocaso. Mar e céu estavam envoltos na claridade dourada.

- Padre Eutímio - disse-lhe - em Konevitsa perguntei ao Padre Doroteu sobre a "oração pura" e, em Novo Valaam, ao Padre Mijail, sobre os limites da oração. Que pensa V. Revma. sobre o assunto?

- Embora as orações feitas na igreja ou na cela, lidas ou cantadas, sejam muito úteis, são contudo temporárias - respondeu o Padre Eutímio. Nem sempre temos cadernos, nem música, nem podemos estar sempre na igreja, nem na cela, e é necessário viver e cumprir com o nosso dever. Não conheço outra oração que seja contínua fora da oração de Jesus. Para fazê-la não é necessário ir à igreja, nem à cela, nem ter livros. A oração de Jesus pode rezar-se sempre e em todas as partes: em casa, na rua, nas viagens, no cárcere e no hospital. Mas temos que aprendê-la.

- E como?

- Não importa como. Para começar tem-se de repeti-la para si tantas vezes quantas sejam possíveis: na cela, no caminho, quando não haja gente. Mas deve-se dizer com atenção, lentamente e com um tom suplicante como o dos pais que pedem: "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende compaixão de mim, pecador". Repita-a quanto puder mentalmente, vagarosa e atentamente. Isto é o começo. Logo você poderá uni-la à sua respiração e às batidas de seu coração. Entretanto, não se atreva a fazê-lo sem que lha tenha ensinado alguém que já tenha aprendido e a pratique, porque você cairia na tentação. Talvez você passe muitos anos assim, mas também é possível que aprenda logo. Então a oração virá à sua mente como um regato, quer trabalhe, quer durma. Logo, nem sequer as palavras serão necessárias, nem os pensamentos, e toda a sua vida se transformará em oração. A propósito disto, o Padre Doroteu lhe falava sobre João de Moldávia.

- E existe pessoa como o staretz João?

- Certamente não existe. Não longe daqui, no mesmo Atos, em Kalivia, há ermitães, alguns dos quais chegaram muito longe.

- Por favor, Padre Eutímio: pode-se conhecer por algum sinal aos que chegaram mais alto na oração de Jesus?

- Claro que se pode.

- E como?

- Se você quer aprender a orar, escolha um staretz sereno e humilde, que nunca condene, que seja, talvez, um "louco por Cristo", que não se irrite, que não grite nem ordene. Com efeito, há staretz que ainda não têm domínio próprio e já começam a guiar os outros. Pode ser que exteriormente e de maneira técnica tenham aprendido um aspecto da oração, mas não receberam seu espírito. Julgue você mesmo: como pode condenar outros o que suplica continuamente: tem piedade de mim pecador?

- Padre, qual é a façanha espiritual mais importante?

- É certamente" a loucura por Cristo", já que a sabedoria deste século é loucura para Deus, e vice-versa. É este um caminho difícil, que não se pode empreender sem o conselho do staretz.

- E depois?

- Depois, as peregrinações, como o autor dos "Relatos de um Peregrino", embora para o mundo isso seja quase um disparate. Em seguida, a reclusão, o anacoretismo e o simples monacato. Mas lembre-se que o importante não é o exterior, mas o interior. Há falsos loucos por Cristo e peregrinos folgazões, anacoretas vaidosos, ermitãos que a todos condenam e monges que não seguem o caminho reto. A pessoa pode salvar-se em qualquer lugar, inclusive no mundo, porém, é mais fácil salvar-se nos mosteiros e no deserto porque ali há menos tentações. Mas se no mosteiro não se orar como se deve, será em vão ter-se retirado, e não só você perderá o que tinha, mas chegará a um estado pior, até se afastará de Deus. Isto pode acontecer muito bem.

- Serão logo as vésperas, Padre Eutímio? - Em seguida - respondeu - a campainha está tocando. É hora de irmos à igreja.

Saímos da pequena sacada e chegamos ao "katholikon" passando pelo corredor e pela escada. Tudo estava envolto numa luz dourada. O culto começou lento e majestoso, como sempre ocorre no Atos.

Luz radiante da glória do Pai celeste,
venturoso e imortal, ó Jesus Cristo!
Chegados ao pôr-do-sol
contemplamos a claridade da tarde,
e cantamos ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo de Deus...

(Hino de Vésperas da liturgia bizantina)

À tarde assomei à pequena sacada de minha cela e contemplei o céu semeado de estrelas. O Padre Eutímio aproximou-se lentamente de mim:

- Está vendo o céu? Contemple a majestade e a beleza da Criação. Assim como não há necessidade de meditá-lo, virá o tempo em que você entenderá muitas coisas e saberá como chegar à oração mais elevada. Com a razão não se compreende, é necessária a luz. As pessoas que vivem no mundo e estão cheias de preocupações não se dão conta destas coisas e, à semelhança dos porcos, olham para o solo buscando bolotas. Mas a verdadeira felicidade e beleza só se revelam àquele em que vive Deus. Sim, grande e bendita é a força da oração. Todo o resto é pó, vaidade das vaidades e tudo é vaidade.

4. Vilmuason: o Padre Tijon

Era a festa da Ascensão que cai na primavera, exatamente no final de Maio. Dia suave e cheio de sol, os lilases já tinham florescido e nos pomares viam-se pequenas pêras e maçãs. Sentei-me com o Padre Tijon num banco do jardim.

Faz calor. Temos que viver e nos alegrar, pois quem se dedica à oração de Jesus como o peregrino, terá sempre a primavera na sua alma. Não devemos apegar-nos a nada nem viver no passado, tampouco no futuro, mas viver no presente e agradecer tudo a Deus. E assim, tudo vai passando. Meu padroeiro, São Tijon de Zadonsk, escreveu: "Tudo é como a água que corre. Fui pequeno, órfão, pobre e isto passou. Freqüentei a escola gratuita, zombavam de mim, mas isto já passou. Terminei o seminário sendo o primeiro, fui professor, me respeitaram, mas isto também passou. Fizeram-me prior de um grande mosteiro, depois reitor do seminário. As pessoas que me rodeavam buscavam os meus favores, mas isto passou. Fui arcipreste, viajei em veículos luxuosos, vivi na corte, vi muitas coisas boas e más, adularam-me, e isto passou. Retirei-me, sofri pressões e chegaram as doenças, mas isto passou. Depois virá a velhice e o descanso eterno".

Aí tem você, Sérgio Nicolaevich, nossa vida. Nasci de uma família pobre, mas estudei num bom Instituto, saí como oficial, estive na corte, pude provar todas as coisas da vida e saciar-me delas, mas isto passou. Logo vieram os fracassos na Academia, meu casamento com uma divorciada, intrigas, fui levado a juízo, vieram calamidades sobre calamidades, mas isto passou. Cheguei a ser coronel, mas já tinha perdido interesse em minha carreira. Dei-me conta de que tudo é apodrecido e passageiro. Em seguida veio a guerra, a revolução, a guerra civil, a emigração, uma dolorosa doença da qual quase morri. Logo, outra mais dolorosa e incurável se abateu sobre minha mulher e ela morreu. Veio o trabalho pesado como operário, mas isto passou. Todas estas dores e todos estes sofrimentos me levaram ao mosteiro e me levaram à fé, e aprendi a arte da oração contínua e da alegria em tudo. Sem o sofrimento nunca teria alcançado a fé.

Padre Tijon - perguntei ao monge - como se alcança a paz da alma? como se evitam lamentações inúteis e ilusórias esperanças?

- Precisamente como lhe disse: vivendo o presente. "A cada dia basta o seu mal". Sobretudo você deve dedicar-se à oração e então se abrirá para você um mundo novo e milagroso. Que dizer? Você conhece as borboletas noturnas? Elas nos parecem cinzentas e pouco atrativas, mas para as outras borboletas que as olham com olhos distintos, são maravilhosamente belas, brilhantes, com as tonalidades do arco-íris. Assim também, o mundo parece outro àqueles que alcançaram a luz, como o peregrino. Em tudo vêem a majestade do Criador e sua inesgotável misericórdia. E quando se começa a assimilar a oração, chega-se com prazer a penetrar na essência das coisas de um modo inexprimível. Só se pode compreender isto com a experiência.

- Há perigo de se cair na soberba?

- Claro que sim, mas pode evitar-se. São Macário, o Grande, ensinava justamente que há salvação ainda para os que não possuem todas as virtudes, mas que sem humildade a salvação é impossível. O publicano e o bom ladrão nada possuíam, mas se salvaram pela sua humildade. Satanás tinha tudo, menos humildade e se perdeu para sempre. O pensamento de Deus é bom e também as meditações sobre os grandes mistérios que nos rodeiam, mas feito tudo com humildade e sem condenar os outros, pois é muito perigoso. Os heresiarcas eram pessoas capazes, mas não tinham alcançado a humildade. Caíram na soberba, rebelaram-se contra a Igreja e pereceram.

- Li, Padre Tijon, que os anacoretas do Tibet que se exercitam repetindo os "mantras" (orações), como "Tesouro do lótus, eu te saúdo", chegam pouco a pouco à calma e ao êxtase. Quando chegam a uma situação-limite, então, pouco a pouco vão encurtando os "mantras", até que finalmente chegam a fazê-la uma vez durante a noite; contemplando desde a gruta a majestade do céu estrelado, dizem: "Oh!" E chegam, por meio da contemplação, à grandeza revelada.

Perguntaram uma vez a Albert Einstein se ele tinha fé. Respondeu o cientista: "Se por fé se entende a admiração diante da sabedoria e da grandeza que reinam no mundo, tenho fé". Mas não reconhecia os dogmas. Que me diz disto, Padre Tijon?

- Não julguemos o que vêem os anacoretas do Tibet, nem como Einstein entende a divindade. Nós temos a Sagrada Escritura, a Dobrotolubie (Filocalia) e a experiência de muitos justos. Exercitando-nos na oração de Jesus, chegaremos humilde e pacientemente, a seu tempo, a conhecer o que é conveniente. De outro modo, nos enfraqueceremos. O principal é tender a este amor, amor à Verdade, isto é, amor a Deus e amor ao próximo. Deus é amor. Aqui está a diferença entre nós e os justos hinduístas e budistas: para eles o principal é o conhecimento e o mal é a ignorância, e para nós, o principal é o amor. No Juízo Final não seremos interrogados sobre onde, quando e como oramos ou meditamos, mas se demos de comer, de beber, se vestimos e visitamos o nosso próximo. Com base nisto, é que seremos condenados ou absolvidos, mas não significa que não possamos entregar-nos à contemplação. Isto convém sobretudo na velhice, quando já não temos a força para praticar a caridade ativa, e também a quem Deus chamou para a vida contemplativa. Os anacoretas não devem isolar-se completamente, mas devem responder verbalmente ou por escrito às perguntas espirituais que lhes sejam feitas. Os grandes anacoretas, como Antônio, Macário e outros, assim o fizeram. E tudo isto deve ser feito com alegria.

5. Monastério de Pskov-Petchersky: Arquimandrita Antônio

O Padre Arcádio estava na sacada de sua cela dando de comer às pombas. Alto, magro, teria uns cinqüenta anos. Era afável e estava sempre de bom humor.

- Padre Arcádio, como faz para estar sempre de bom humor?

O Padre Arcádio respondeu sorrindo:

- Por que vou estar triste? Estou com saúde, posso comer e beber, estou vestido e calçado, vivo numa cela acolhedora, ajudo na igreja como diácono, trabalho numa oficina de carpintaria, leio livros espirituais e me dedico à oração. Que mais quero? Os que desejam mais que isto, estão sujeitos, segundo o apóstolo São Paulo, a muitos sofrimentos e paixões. Vencem-nos a avidez, a vanglória, a vingança ou os vícios. Quando não podem alcançar o que desejam, se lamentam, se irritam e caem na inquietação com medo de perderem o que conseguiram, e por isso se entristecem e se agitam. Se você, Sérgio Nicolaevich, quer estar sereno, viva então com simplicidade, evite o orgulho e tudo irá bem. O staretz Ambrósio de Optina dizia: "Viva com simplicidade e você viverá cem anos".

- Isto, dentro do mosteiro, Padre Arcádio. E no mundo?

- Isto é o que acrescenta o staretz Ambrósio: "Pode-se viver também no mundo, porém não na agitação, mas na calma".

- E que acontece se houver pecados?

- Também é simples, Sérgio Nicolaevich. Os padres do deserto diziam: "Uma vez veio um jovem monge ver o staretz e lhe disse: 'Que farei, Abba, pois caio sempre no mesmo pecado?' E o staretz lhe respondeu: 'Caíste uma vez, levanta-te e arrepende-te'. 'E se cair outra vez?' 'Então, levanta-te e te arrepende novamente!' 'E isto até quando?' 'Até a morte'". Aqui está, Sérgio Nicolaevich, como permanecer na paz. Não há homem no mundo que não cometa pecado. Sobre isto, o apóstolo João escreve que para todo pecado existe o arrependimento; por isso a contínua penitência nos salva, por um lado, do orgulho e da soberba, e por outro, nos permite evitar o desespero (Apotegma de Sisoés. Alfab. 38, cf. Doroteu de Gaza, Instr. 13)*.

- E aqui que vem a propósito a oração de Jesus, Padre, quando nela se pede: Senhor, tem piedade.

- Assim é, irmão Sérgio. Nós pecamos não a cada hora, mas a cada minuto, por palavras, ações e pensamentos. Acolhemos com gesto as tentações, isto é, os pensamentos que são duvidosos, inconvenientes, sacrílegos ou impuros, olhando-os de todos os lados e aceitando-os: se não caímos em pecado, é porque não se nos apresentou uma ocasião propícia. Aqui vem a propósito a Oração de Jesus. Por exemplo, se vierem pensamentos blasfemos ou desejos de mulheres ou vontade de ofender alguém ou até de bater em alguém, deverá dirigir-se a Jesus com a sua oração, sussurrando-a ou dizendo-a mentalmente: "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim pecador"; e isto, lentamente, com atenção e arrependimento, abandonando os maus pensamentos. Mas se você voltar a cair neles, não se desespere, reze a oração e sua alma se acalmará. É costume que os demônios nos apresentem, antes do pecado, a um Deus misericordioso e que gosta de perdoar, um Deus que sabe que o homem jovem e forte está inclinado à impureza e por isso não se mostra demasiado exigente. Mas ao que já pecou, lhe apresenta um Deus severo, juiz implacável que impele ao desespero. Alguns chegam até ao suicídio, e isto sem falar dos que enlouquecem. Entretanto, os que recorrem ao Senhor, sempre perseveram na humildade.

Uma vez Santo Antônio viu a terra inteira semeada de armadilhas postas pelo demônio e aterrorizado perguntou: "Quem poderá, então, salvar-se?" E ouviu a resposta: "O que é humilde". (Apotegma de Santo Antônio, Alfab. 7, cf. Doroteu de Gaza, Instr. 2). Por isso, é importante a oração de Jesus ininterrupta. Muitos, mesmo na vida monástica, dizem que "não serve para nada" e que bastam os ofícios na igreja e as orações privadas, mas nem sempre estamos na igreja nem nas celas e a tentação nos segue por toda a parte; e em segundo lugar, se os cantos e leituras religiosas na igreja ou na cela salvassem, então, os cantores e os leitores deveriam ser sempre modelos de virtude e isto nem sempre acontece, segundo dizia o staretz Basílio. Mesmo que cantem bem, e leiam corretamente, a atenção está posta no canto e na leitura, assim como na execução musical e na dicção, e não no sentido do que se canta e do que se lê. No entanto, há certamente cantores e leitores que são espirituais.

- Padre Arcádio, diga-me: que é melhor, a vida ativa no cenóbio ou em comunidade, ou a solidão do deserto?

- Cada coisa deve ser a seu tempo. Primeiramente, é necessária a vida em comum para polir-se, como as pedras do litoral dos mares ou das margens dos lagos, que são agudas e ásperas quando caem na água, e logo, ao se roçarem umas com as outras, se vão polindo até ficarem como se fossem de marfim. A vida em comum serve para polir nossas arestas e provar a nossa humildade, a nossa paciência, afabilidade e pobreza. E quando todas estas virtudes já forem costume em nós, então alguém poderá pensar em se retirar para a solidão, e isto numa idade já madura, por volta dos cinqüenta anos, pois antes será apenas veleidade e vanglória. E então, se a pessoa chega a polir-se e acostumar-se à oração de Jesus, então pode, mais ainda, deve retirar-se para a solidão e preparar-se para transportar-se a um mundo distinto e espiritual. Já que, no estado em que a morte nos surpreender, seremos julgados. Aquele que, como as virgens prudentes; estiver sempre disposto com a Oração de Jesus e tiver azeite na lâmpada de sua alma, entrará preparado nesse mundo, que é diferente deste ao qual foi chamado. é o que pedimos na ladainha: "... Um fim cristão de nossa vida, sem dor, sem remorso, pacífico e uma boa resposta diante do tribunal temível de Jesus Cristo" (Ofertório da liturgia bizantina). Assim é a Oração de Jesus. Quem a pratica está na verdade e é humilde, simples, alegre e bem-aventurado. Que mais podemos desejar?

Era uma maravilhosa manhã de verão. No céu azul brilhavam as cruzes douradas dos templos brancos, rosa e amarelos. Entre a folhagem, cantavam os pássaros. Uma serena alegria se estendia a todas as coisas.

6. Nierko-Iervi: Nina S. Nicolaevna

Estava eu sentado com Nina Nicolaevna na pequena sacada da "dacha" de Nierko-Iervi, no meio de um enorme bosque que se estendia desde Komio até ao sul pela tundra de Laplandy. A "dacha" se encontrava isolada, em meio de um espesso bosque, às margens de um lago aprazível. O sol poente se refletia nas tranqüilas águas douradas. Eu admirava sem cansar-me o jogo de cores sobre o lago. Se de manhã era profundamente azul, era quase negro na aurora, rosa ao crepúsculo e mais tarde, rosa, roxo, violeta e negro. O céu azul-claro estava sem nuvens e alguns pássaros gorjeavam no bosque. O aroma das flores e a frescura do lago chegavam até nós.

O marido e os filhos de Nina Nicolaevna já tinham ido deitar-se, e nós estávamos na sacada admirando as cores cambiantes do lago. A noite diáfana reinava em toda a sua beleza.

- Aqui estamos tão tranqüilos, Nina Nicolaevna, como se fosse outro planeta ou vivêssemos trezentos anos atrás, quando havia pouca gente, não existiam trens, automóveis, aviões e, contudo, as pessoas que buscavam o silêncio emigravam para o norte, para a ilha Solovky no Oceano Ártico.

- Só aqui descansa a minha alma, Sérgio Nicolaevich. Somente aqui há lagos e bosques, não há cidades, nem povoados. Nas grandes cidades se vive com dificuldade: ruído, ar contaminado, agitação, multidões. E onde há muita gente, há intrigas, invejas, calúnias e outros males. Quando eu era jovem, gostava de toda esta agitação e ruído. Fui muito infeliz no meu primeiro casamento. Meu marido era um homem simpático, inteligente, mas superficial, desordenado, sem fé nem princípios. Quando tudo terminou em tragédia, voltei à fé. Fui a Valaam encontrar-me com o Padre João para pedir-lhe conselho: "Sabe, serva de Deus - disse ele - não sofra demasiado, como se tudo estivesse perdido. Você é jovem e pode mudar as coisas. Ademais, o Senhor nunca nos manda provações superiores às nossas forças. Lembre-se sempre disto: existe uma tradição que diz que certo monge se entristecia pela sua vida e murmurava contra a sua pesada cruz. Uma vez teve um sonho em que se via a si mesmo numa enorme gruta em cujas paredes estavam penduradas muitas cruzes. Havia cruzes de ouro, de prata, de ferro, de pedra, etc. Nisso ouviu uma voz: "A sua oração foi ouvida! 'Escolha qualquer uma destas cruzes, a que julgar adequada a suas forças'. O monge começou a buscar com muita atenção e por fim encontrou uma pequena cruz de madeira. 'Posso levar esta?' perguntou. 'Mas se esta for a tua cruz, as demais serão ainda mais pesadas', respondeu a voz. Agora te parece que tua cruz é pesada e, contudo, eu, como staretz, ouço amiúde e vejo tantos horrores, que é um pecado você murmurar contra Deus. Reze freqüentemente repetindo a Oração de Jesus, e entregue-se à vontade de Deus. Ele próprio lhe mostrará o caminho a seguir, então venha outra vez e lhe direi o que puder". E me deixou.

Passaram-se alguns anos. Eu trabalhava num lugar modesto e vivia tranqüila. Uma vez me convidaram a um baile, e embora já tivesse trinta anos. aproximou-se de mim um cavalheiro um pouco maior que eu e me convidou para dançar com ele. Aceitei. Depois, encontramo-nos duas vezes mais. Disseram-me que este cavalheiro era solteiro, um dos mais ricos da colônia escandinava e respeitado por todos. É ele meu atual marido e um homem muito interessante. Depois de uns dois ou três meses que nos conhecíamos, pediu-me em casamento. Meus pais ficaram entusiasmados com semelhante partido, porém, por causa de minha experiência anterior, me mostrei cautelosa e desconfiada, pedi-lhe um tempo para pensar sobre a minha resposta. Meu noivo aceitou. Procurei o staretz de Valaam para pedir-lhe conselho e lhe contei tudo. Esteve pensando alguns minutos e depois me disse: "Serva de Deus, lembre-se que lhe disse que tudo se acertaria e que o próprio Deus a conduziria pelo caminho certo, e isto aconteceu. Tenha sempre presente que as penas e o sofrimento não desaparecem, mas se transformam. Em lugar da pequena cruz de madeira de uma vida humilde, pobre, desconhecida, lhe darão uma cruz de ouro que você poderá levar, se praticar a misericórdia e a beneficência, mas será mais pesada. Inveja-la-ão, calunia-la-ão, procurarão indispor você com o seu marido e com a sua família, etc. Mas se você não se apegar nem às riquezas, nem às honras que logo virão, e à vida agitada, então você conservará a paz interior, sobretudo se você se exercitar, o mais possível, na Oração de Jesus. E ainda aconselho você a retirar-se, uma vez por ano pelo menos, a um lugar solitário e aí entregar-se à oração e à meditação. Você verá quanto lhe será útil".

Tenho muitos anos de casada, e durante um mês, cada ano, venho aqui. No começo, meus filhos e meu marido não gostavam muito, mas agora todos esperam este momento. Isto é o paraíso. E devo dizer que o staretz estava certo porque a cruz das riquezas é mais pesada que a cruz da pobreza, e é, além disso, mais perigosa, porque é fácil cair no orgulho e ficar impassível diante da dor alheia.

Agora há um staretz maravilhoso no Novo Valaam, o hieromonge Mijail, o Recluso. Vá conversar com ele sobre suas dificuldades na vida e ele lhe dará conselhos. Dei-me conta através dos anos que a coisa à qual se aspira com obstinação, lutando contra tudo, e que finalmente acontece, não é útil, mas prejudicial, porque ou a pessoa se mortifica pela coisa, ou se torna indiferente, ou percebe que o esforço não valia a pena. O que vem de Deus, vem só, ou como diz o Evangelho: "O Reino de Deus não vem visivelmente, mas está dentro de nós".

Há muito, muito tempo, quando começou o sofrimento com o meu primeiro marido, disse a uma tia, que era uma mulher de muita experiência: "Vou deixar meu marido. Deixarei tudo e outra vez serei feliz". Ela respondeu-me: "Vê-se que você é jovem, Nina. Você nunca poderá fugir de si mesma e se tiver paz em sua alma, estará bem em toda a parte. Na vida não se pode fugir do sofrimento, deve-se ter paciência, orar e esperar, e o Senhor lhe mostrará o caminho a seu tempo. Esta é a verdade, mas quando a gente é jovem, não entende isso".

Calamo-nos. O lago estava mais escuro. "Já são onze horas da noite - advertiu Nina Nicolaevna e está claro como o dia. Está na hora de descansar, Sérgio Nicolaevich, boa-noite!"

7. Mosteiro de Alexandre  Nevsky: Staretz Basílio

Eu tinha um pouco mais de sete anos. Ia com minha avó Elisabeta Alexieievna pela ponte do rio Monastir até a Lavra de Alexander Nevsky, em São Petersburgo. Era pleno inverno e fazia muito frio, mesmo com o sol. De repente, vemos que se aproxima de nós uma figura alta e singular. Era um ancião de batina azul, cabeça descoberta, cabelos brancos e barba. Tinha nas mãos um báculo de madeira negra, terminado em uma coroa. Porém, o que mais se admirou foi ver o ancião caminhar descalço pela neve, neste frio terrível e seus pés, em vez de estar entanguidos pelo frio, estavam rosados, como se caminhasse por sobre um suave tapete. Estava pasmo de admiração e fiquei mais ainda quando o ancião, vendo minha avó, se dirigiu diretamente a nós:

Olá, Elisabeta Alevieievna! Você está vindo venerar as relíquias com este frio? Muito bem! Não nos devem afastar de Deus nem o frio nem o calor.

- E esta criança é seu neto? Bem, bem, que o Senhor esteja com vocês. E o ancião deslizou majestosamente diante de nós.

- Quem é ele, avozinha? - perguntei-lhe.

- É o staretz Basílio, meu filho. É um homem espiritual. Todos o recebem. Tem acesso até ao próprio czar e foi ele quem lhe deu o báculo com a coroa.

- E como é que ele consegue andar descalço, avozinha? Eu tenho sapatos forrados e meus pés estão gelados, tenho um gorro que cobre minha cabeça até as orelhas e ele não tem luvas e está com a cabeça descoberta. Como pode ser isso?

- É que sua oração o abriga. Em tempos antigos, no longínquo Norte, viviam homens santos em cavernas e havia até alguns que moravam em troncos de árvores ocos, suportando frios terríveis, mas sua oração os abrigava.

- E qual é a oração, avozinha?

- É a oração que se chama Oração de Jesus: "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador!" Os monges têm obrigação de rezá-la em suas celas e também é aconselhável para os leigos. Quem persevera nesta oração e a reza continuamente, sente-se confortado. Para esta pessoa nada significam o frio nem o calor, e não sente fome nem sede. Mas agora a fé se arrefeceu e até nos mosteiros ela foi esquecida ou é rezada mecanicamente. Os monges de hoje não possuem a audácia da fé que move montanhas e cura doenças. Se o staretz Basílio pode caminhar descalço com vinte graus abaixo de zero, quer dizer que tem fé e sabe orar.

- Somente os monges praticam esta oração?

- Não, não somente eles. João de Kronstadt, homem de profunda oração, também faz milagres e faz curas. Existem ainda tais homens no mundo. Agora você é pequeno para entender isto, porém mais adiante o entenderá. Assim era a tia-avó de tua mãe, que depois foi superiora de um convento. Pertencia aos velhos-crentes, como seu compatriota o bispo Paládio, metropolita de Petersburgo, que é uma pessoa muito boa. Tinha sido antes professor, e quando lhe morreram mulher e filhos, fez-se monge, e agora já faz muito que é metropolita. Lembro-me também do falecido bispo Isidoro, que, quando morreu, tinha mais de noventa anos, e então não descansou, mas governou até o final de seus dias. Quem é sóbrio, moderado e sacrificado, vive muito e termina bem. Você, glutão, gosta de comer bem, mas isto não está certo. Não se deve apegar às coisas, porque tudo passa.

- Que quer dizer "tudo passa"? - perguntei à avozinha - Já sei que o verão e o inverno passam, porém, que mais passa?

- Você tinha seu avô, Abraão Pavlovich, e agora já não tem mais. Ele passou.

Tais raciocínios me deixaram perplexo, e não me atrevi a perguntar mais. Entramos na Catedral da Trindade, luminosa, clara e serena. Minha avó pegou as velas e fomos colocá-las na urna do servo de Deus, o santo e bem-aventurado Príncipe Alexandre Nevsky. À saída, veio ao nosso encontro um monge imponente.

- Com este frio, veio com seu neto, Elisabeta Alexieievna? É admirável.

- E encontramos o staretz Basílio - acrescentei por minha conta. - Estava descalço e com a cabeça descoberta e não sentia frio. Como pode ser isto?

- Como você é curioso! - sorriu o monge. Sua Oração de Jesus o abriga como um manto de pele e ele caminha pela neve como se caminhasse por sobre um acolchoado. Já ensinava isto o recém-glorificado santo de Sarov, Serafim. Reze deste modo. Aprenda esta oração e repita-a, e logo você verá por si mesmo. Agora você é muito pequeno, mas comece a fazê-lo a seu tempo para não se perder e abandonar completamente a fé, como acontece aqui com os estudantes. E sem fé, irmão, você não poderá viver.

- Meu neto - observou minha avó - é muito piedoso. Tem seu quarto repleto de ícones. Acende velas e lâmpadas diante deles e reza. Vê-se que herdou esta inclinação da abadessa Anfisa.

Hoje são piedosos, mas crescem e caem no ateísmo. Mas você, Serioya, não deixe a oração. Ore como quiser, mas ore. Aproximam-se tempos difíceis. Houve uma revolução, que agora amainou, mas só por algum tempo. São Serafim previu tempos difíceis e teremos que nos manter com a oração e com o sacrifício. Nós, porém, Elisabeta Alexieievna, não viveremos para presenciarmos estes horrores, mas a criança terá que suportá-los. Então a oração lhe será de grande ajuda.

Enquanto voltava para casa com a minha avó, pensava todo o tempo no que tinha ouvido, e o guardava em meu coração.

8. Monastério de Pskov-Petchersky: Eugênio Nicolaevich

Em 1926, encontrei o doutor Rozov no mosteiro de Pskov-Petchersky. Ele era então médico do distrito, e ao mesmo tempo atendia aos irmãos, pelo que tinha direito a ocupar uma sala no primeiro andar da casa paroquial. Eugênio Nicolaevich tinha mais de cinqüenta anos e era viúvo. Seu filho, um moço equilibrado e inteligente, estudava na escola secundária de Petchersky. Ambos viviam com muita simplicidade. O doutor Rozov provinha de uma família de sacerdotes, tinha estudado no seminário sem chegar a ordenar-se, formou-se em medicina, cursando brilhantemente a Faculdade de Medicina de Tomsk, na Sibéria.

Não somente era bom e espiritual, mas também perito em teologia. Tinha uma profunda humildade e um grande amor ao próximo. Não se negava nunca a ninguém. Se lhe pediam que fosse ver um doente num local distante, ia sem cobrar nada; quando lhe pediam conselhos, ele os dava. Em sua casa não recusava nada e, apesar disso, não passou necessidade. Uma tarde, eu estava sentado com ele em seu quarto. Pelas janelas abertas entrava o perfume dos lilases e dos jasmins do jardim da casa paroquial. As igrejas dos mosteiros antigos, pintadas de cores claras com cúpulas azuis pontilhadas de estrelas douradas, se destacavam nitidamente sobre o fundo verde do jardim na penumbra transparente das noites brancas do Norte. Reinava um silêncio solene e profundo. No acanhado recinto diante de um ícone antigo, brilhava a luz de uma lâmpada. Eugênio Nicolaevich estava sentado numa cadeira, com uma blusa russa de cor branca cingida por um cinto. Com a barba já grisalha parecia um cura de aldeia na sua paróquia.

- Eugênio Nicolaevich, segundo me disseram, você não se preocupa em ganhar dinheiro, tampouco está solícito com o seu sustento e, apesar disto, está sempre de bom humor. Como pode explicar-me isto?

- A gente fala, Sérgio Nicolaevich, e eu só digo que, segundo o Evangelho, deve-se buscar o Reino de Deus e sua justiça, e tudo o mais será dado por acréscimo. Como você sabe, eu sou filho de um sacerdote e terminei o seminário. Na minha infância e juventude, ia amiúde com meus pais aos mosteiros da Trindade São Sérgio, a Optina Pustinia, a Sarov, a Valaam, etc. Uma vez escutei uma história que contou um hospedeiro de Optina Pustinia. Disse que uma vez chegou ali para orar um rico comerciante moscovita, mas por causa do degelo teve que adiar seu regresso mais do que pensava. Estava com seu filho. Ao despedir-se, perguntou ao hospedeiro: "Padre, quanto vai cobrar-me pela minha hospedagem e pela do meu filho?" E ele lhe respondeu: "Quanto você quiser". "E se eu não quiser pagar nada?" "Será esta a sua vontade". "E se de cem peregrinos, somente um quiser pagar?" "Assim acontece algumas vezes, que de noventa pagam dez". "Bem disse o comerciante a seu filho - tira o dinheiro e paga por nós e pelos que não pagam". E pagou de boa vontade e ficou contente.

Por isso agradecemos a Deus por alimentar nossos irmãos necessitados. Meu falecido pai, o Padre Nikolai, sempre me dizia: "Quando você for médico, Eugênio, os pobres virão procurá-lo e não terão com que pagar. Você não lhes exigirá nada e lhes comprará os remédios. O Senhor não abandonará você, você viverá, e a sua alma estará sempre em paz e sua consciência não poderá acusá-lo de nada". Eu faço assim e estou contente. Se alguém pode pagar, o agradeça. - Se não pode, trabalho para Deus. Os que servem aos pequeninos, servem a Deus. Agora mesmo me trouxeram uns vidros de marmelada e nem sequer sei quem os trouxe. Trazem também dinheiro e objetos, não só para mim e para meu filho, mas para os demais. Recordo o apóstolo São Paulo: "Se, pois, temos alimento e vestuário, contentemo-nos com isso. Ora, os que querem se enriquecer caem em tentação" (1Tm 6, 8-9). No Evangelho está escrito: "Não podeis servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6, 24). Os fariseus, que amavam as riquezas, sorriam, mas quem ri por último ri melhor.

Por isso, se esforce pelo único necessário e o resto lhe será dado por acréscimo.

- Como é isto, Eugênio Nicolaevich?

- E evidente que você é ainda um homem um pouco religioso. Saiba de uma vez por todas que o principal é adquirir a paz interior, e quando a tiver conseguido, nada lhe faltará porque está escrito: "Adquira a paz interior, e milhares encontrarão a salvação perto de você". E estes milhares lhe trarão tanto que você não saberá onde guardar tudo. E inútil inquietar-se por estas coisas. Os ateus querem apropriar-se de tudo e arrastar os outros porque dizem que se vive uma só vez. Para eles a dívida se embeleza quando se paga.

Agora, Sérgio Nicolaevich, você vai para o exterior, começando pela Bélgica e pela França, e aí estará com os católicos e logo, talvez, se encontrará com protestantes, aqui e lá. Nada acontece sem a vontade de Deus, portanto deverá ir bem, se tudo se for arranjando por si mesmo.

Você começa algo de novo, nunca ouvido: a relação com os católicos, coisa que a alguns lhes parecerá suspeita porque pensarão que o fará para beneficiar-se. Mas se enganam, Sérgio Nicolaevich. Sou um velho médico e já vi muitas pessoas, e por isso sei que você é um homem simples, ingênuo e não é dos que se aproveitam. Precisa passar por um pouco de sofrimento, de extrema pobreza, de incompreensão e desprezo, mas não desespere e com paciência viva com simplicidade, com simplicidade e humildade, e a seu tempo virá o que agora você não pode imaginar: refiro-me ao sucesso de sua façanha. Então você entenderá o que significa receber cem por um. Mas no começo, é necessário sofrer, alcançar a paz do desapego do mundo. É assim que eu me esforço. Faça o mesmo, não se apegue ao que passa e siga seu caminho. Leu a Filocalia?

- Li-a, Eugênio Nicolaevich, mas sinceramente, entendi muito pouco.

- Quando chegar à minha idade, entenderá por experiência. Na Filocalia há muitas coisas sobre a vigilância do pensamento e também sobre a Oração de Jesus. Ela o ajudará muito.

- E pode uma pessoa jovem que vive no mundo, como eu, dedicar-se a esta oração?

- Claro que sim. O peregrino dos relatos tinha sua idade e também Nemitov, o comerciante milionário de Orlov, que havia chegado a tais alturas do espírito que o próprio staretz Macário de Optina se admirava. Além disso, no fim de sua vida, se desprendeu de tudo e me arrastou também a mim, quando meu filho já podia manter-se sozinho. Quanto à oração, seja sempre moderado. Tudo chega com os anos, mas temos que nos esforçar.

Quando pediram ao staretz Ambrósio que intercedesse para a promoção de alguns irmãos, respondeu: "O tempo trará tudo: o hábito, o sacerdócio, mas não o Reino de Deus, que ninguém o dá, mas temos de nos esforçar para ganhá-lo". Esmere-se com sinceridade na oração, pois o Reino de Deus está no seu interior e ela o ajudará a consegui-lo.

9. Novo Valaam: o Monge Mijail

Minha última conversa com o Padre Mijail no Novo Valaam foi a mais útil e a mais profunda. O Padre Mijail tinha então mais de oitenta anos, mas era jovem de inteligência e de coração. Sentei-me com ele em sua cela. Corria o mês de agosto e soprava um vento suave. O sol se punha do outro lado do lago, por trás dos bosques sem fim. Reinava um silêncio profundo.

- Padre Mijail, diga-me quais são as etapas da vida espiritual.

- Como explicou a você o Padre Arcádio do mosteiro de Petchersky, ninguém se salva sem humildade. Lembre-se que até o fim de sua vida você cairá em pecado, grave ou leve, de ira, soberba, mentira, vaidade, cobiça, e a consciência disto levará você à humildade. Por que se orgulhar, se diariamente você peca e ofende a seu próximo? Entretanto, para cada pecado, há arrependimento. Se você pecou, arrependa-se, e assim até o fim. Deste modo você não desesperará e pouco a pouco alcançará a paz. Para isto, tem de vigiar seus pensamentos, porque eles podem ser bons, indiferentes ou maus. A estes últimos nunca os aceite e quando aparecerem, afaste-os imediatamente com a Oração de Jesus, e não fique pensando neles porque eles enfeitiçarão você e chegarão a despertar-lhe o interesse, e o deleitar-se neles será o primeiro passo para o pecado.

Há pensamentos que nos parecem bastante inocentes, mas que levam a faltas graves e a grandes tentações. Em Ufim havia um mosteiro de mulheres onde vivia uma staritsa vidente. O diretor espiritual deste mosteiro era um excelente sacerdote, viúvo, de sessenta anos. Uma vez, quando foi deitar, lembrou-se que há trinta anos, quando viviam ainda sua mulher e filhos, todos os dias eles levavam as crianças à cama, e este pensamento o enterneceu e comoveu. Lembrou-se logo da esposa e seus pensamentos foram até onde não convinha, de modo que passou toda a noite em oração e prostrações, tal chegou a ser a tentação. Pela manhã, a staritsa o chamou e lhe perguntou: "Que lhe aconteceu a noite passada, padre, que as forças impuras o assediaram como moscas?" O Padre confessou com sinceridade: "Aqui está até onde podem levar-nos os pensamentos que no começo nos parecem bons". Os psiquiatras o interpretam com a psicanálise, mas nós, como podemos distinguir o que é bom do que não é? Por isso, temos que nos dirigir a Deus continuamente: "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador!" Disse o apóstolo Paulo que quem confessa que Jesus Cristo é Filho de Deus e lhe suplica continuamente, sem interrupção, será salvo. Você, Serioyenka, exercite-se quanto puder na Oração de Jesus, e pouco a pouco chegará à "apatheia" e o sinal é que você gozará de uma paz contínua e profunda.

- E depois, Padre Mijail, que acontece?

- O silêncio tem dois aspectos: o primeiro é calar-se. Com isto, pelo menos não se escandaliza nem se ofende o próximo. Mas não basta. Os Padres do deserto dizem que o anacoreta que está em sua cela sem ver ninguém, ressentido pelas ofensas que um dia recebeu, assemelha-se à áspide que está na sua cova cheia de veneno mortal.

O segundo aspecto do silêncio é o silêncio interior. Sobre ele diziam os Padres: Há monges que falam da manhã à noite, conservando-se, contudo no silêncio, já que somente falam o que pode ter utilidade para outros e para si mesmos. Este é o silêncio interior. Procure alcançá-lo, Serioya, e quando o alcançar e deixar de julgar os demais, então levante-se e comece a louvar a Deus que lhe concede a sua grande misericórdia. Você não está, então, tão longe da pureza de coração, e você sabe que somente os puros de coração verão a Deus. Outros, pelo contrário, vão por outro caminho, pelo caminho das lágrimas benditas. Estas não são as que se derramam quando chega ao coração a perda dos entes queridos, a leitura de alguns livros, o relato de alguma história, etc. Chama-se dom das lágrimas quando são estas como um regato e isto por vários anos e continuamente. Estas lágrimas queimam como fogo tudo o que há de impuro na alma, levam-na a uma grande paz e a ver a Deus.

- Padre Mijail, que significa "ver a Deus"? É uma metáfora?

O Padre Mijail olhou-me profundamente e, refletindo, disse:

- Certamente ninguém jamais viu a Deus senão o Filho que está no seio do Pai e que O manifestou. Diz-se que "os querubins e os serafins cobrem o rosto diante de Deus". A, essência de Deus não só não a vemos, mas não podemos entendê-la. Porém podemos ver a sua glória, a glória do Tabor, luz incriada e indescritível que viram os três apóstolos escolhidos, no monte. Esta é a luz que Motovilov viu enquanto falava com são Serafim. Esta é a inspiração do Espírito Santo, o Reino de Deus que veio com força.

Isto mesmo viu são Tijon de Zadonsk antes do episcopado. Também tornaram-se dignos de vê-la o monge Antônio Putilov, Maloiaroslavsky quando era muito jovem ainda, sem falar das visões de são Simeão, o Novo Teólogo, Pouquíssimos conseguem ver esta luz.

- Padre, há alguns outros justos que conseguem ver esta luz inalcançável?

- Por que não? Temos de pensar que os há. Mas para que serve sabê-lo? Uma vez que você crê que existe esta luz, para que quer saber mais? Bem-aventurados os que creram sem ver, A Motovilov foi-lhe dado ver esta luz como uma" segurança".

- E que é isto, Padre Mijail?

- Contam do staretz siberiano, Daniel Aguinsk, a quem honrava profundamente são Serafim de Sarov, o seguinte: Uma rica siberiana, filha espiritual sua, tentou entrar no mosteiro, Foi a vários conventos de mulheres na Rússia e na Sibéria, e não sabia que convento escolher. Por fim foi ter com o Padre Daniel e solicitou que lhe indicasse em qual deles ela deveria entrar. Ele respondeu-lhe: "Se eu te indicasse e não gostasses, dirias depois: 'Nunca teria entrado aqui, se o staretz não me tivesse aconselhado'. Ficarias desgostosa comigo e te sentirias muito descontente. Então, vê e busca, e quando encontrares aquilo de que necessitas, teu coração pulará de gozo e te sentirás segura". Foi o que aconteceu quando esta siberiana foi ao mosteiro de Irkutsk, Pulou seu coração de alegria e ali ficou, e veio a ser a abadessa Susana.

Sua vocação, Serioya, é aquela da qual falava são Serafim ao abade Timon de Nadeiev: "Semeie boas palavras em todo lugar aonde vá, quer no caminho, entre os espinhos, sobre a pedra ou em boa terra, A semente brotará e dará fruto, até à razão de cem por um". É preciso que você se esforce para conseguir o silêncio da alma, já que numa alma turbulenta não pode haver nada de bom. E quando você se acalmar, será razoável e então poderá fazer muitas coisas. Eu lhe falei sobre o silêncio interior que significa verdadeira reclusão, anacoretismo e Oração de Jesus, a qual nunca interrompe o serviço de Deus no interior do coração, onde está, justamente, o Reino de Deus. Tudo isto, bem entendido, lhe será de grande ajuda.

10. Província de Niyegorodskaia: Maria Nicolaevna

Minha mãe morreu em julho de 1918, depois da revolução soviética, em Chornie, sua cidade natal, e foi enterrada no panteão familiar dos Balunin, em Yolnik. Tinha quarenta anos e ficou sete anos doente. Começou com uma tuberculose e quando melhorou, adoeceu do coração. Sua tragédia consistia em que, sendo mulher rica e bonita, não pôde gozar dos bens da vida e sempre sofreu muito. Era muito religiosa, observava os jejuns e orava segundo os ritos antigos, de acordo com suas crenças. A ela devo a firmeza na fé.

Minha avó, Maria Nicolaevna Balunina, tinha mais de sessenta anos em 1919. Era uma mulher imponente, severa, dominante, mas reta, justa e religiosa com minha mãe. Sua vida não foi fácil no primeiro ano de casamento. Era a segunda mulher de meu avô, mas em pouco tempo tomou conta de tudo: marido, filhos, propriedades, etc.

Uma tarde, pouco depois da morte de minha mãe, eu estava sentado na sacada da esplêndida casa solarenga; diante de mim, a vista maravilhosa do Oka, largo e caudaloso, e longínqua praia ondulada.

- Você está triste, Serioya, advertiu minha avó aproximando-se de mim. Você não deve ficar triste, antes, deve alegrar-se.

- Por que, vovó?

- Porque sua mãe, a falecida Lida, agora está onde não existem doenças, dores nem tristeza. Morreu cristãmente, em paz e sem sofrimento e foi sepultada ao lado de seu pai. Sua vida como esposa e mãe foi exemplar. Então, tudo está bem. O Senhor a chamou quando convinha. Começam tempos de guerras e revoluções, e ela teria de sofrer muito mais. Deus não vê as coisas como nós. Seus caminhos são sempre inescrutáveis e levam ao melhor. Mas com os anos você compreenderá mais claramente. Quando eu tinha a sua mesma idade, dezessete anos, fui às ermidas de Keriensky com minha mãe para a consagração de minha parenta e amiga, Leonochka. Lembro-me como se fosse hoje: era depois da Páscoa, num maravilhoso dia de primavera. No céu flutuavam nuvens brancas e nos caminhos se agitavam ao vento as bétulas. Ao redor, os espessos bosques de Keriensky, pequenas choças com seus jardinzinhos e tudo estava inundado de sol. Entretanto, havia como uma névoa que envolvia o conjunto como no quadro de Nesterov denominado "a Grande Consagração". Ali, como no quadro, ia a procissão encabeça da pela nova professa, serena e bonita, seguida das monjas solenes mais velhas. A irmã de seu bisavô e minha tia, Paula Patrovna Anfisa, era então a abadessa.

Tudo isso me parecia tão bem, que pensava devia ficar ali, em paz e orando. Mas o Senhor dispôs que me casasse com um viúvo severo e exigente - que tinha filhos pequenos. Ainda me faltava muita experiência e muitas provações estavam por vir. Ao abençoar-me antes de meu casamento, minha falecida mãe me disse: "Mashenka, você vai se casar com um viúvo rico com filhos pequenos, acaba de fazer dezenove anos. Você terá muito que sofrer, mas saiba sempre ser fiel a seu dever e se lembre que 'a paciência e o trabalho suavizam tudo'". E assim sucedeu: jamais me queixei do que teria podido ser. Não vou aconselhar você. Lembre-se somente da palavra da Escritura: "Mostra-te fiel até à morte, e eu te darei a coroa da vida" (Ap 2,10).

Agora estão dizendo que fuzilaram o imperador Nicolau Alexandrovich e toda a sua família e outros parentes em Ekaterimburgo. Tais horrores nunca se tinham visto na Rússia desde o Tempo das Desordens, e continuarão até que sucumbam todos esses assassinos e traidores, aniquilando-se uns aos outros.

Agora será o mesmo. Se as coisas seguissem seu curso normal, você deveria ser um homem muito rico, viveria na abundância, cheio de honras; entretanto a revolução, melhor dito, o Senhor Deus, priva você de tudo isso. Mas não se queixe, porque em lugar disto, lhe será dada uma grande liberdade espiritual e você não estará mais ligado a preocupações, negócios, possessões etc.

- E você, vozinha, como me aconselha estas coisas, se a revolução se intensificará mais e mais e tudo estará perdido?

- Volto a dizer a você: viva segundo sua consciência e nunca aja contra ela, mesmo prejudicando a sua profissão. Os que não agem deste modo, recebem o merecido quando se irritam, quando se preocupam pelo que possuem, se inquietam pelas honras, intrigas, humilhações e invejas dos que progridem mais que eles, e ocorrerá o pior, se caírem no crime. Na realidade, o homem recolhe o que semeou, e se semeou boa semente, terá boa colheita, e se má, terá má colheita.

Vêm tempos de ateísmo, mas você não olhe para os outros, antes mantenha a sua fé e não se sentirá defraudado. Ore, como o fazia a abadessa Anfisa, erguida como um círio, inclinando-se e prostrando-se e então já passava dos setenta anos de idade. Morreu com mais de noventa, levando uma boa velhice, sem estar surda, cega, nem paralítica. Adormeceu simplesmente, e descansou de suas boas obras. O essencial não é prostrar-se, mas ter pureza de coração e de consciência.

Eu estive em Sarov, para a canonização de São Serafim, e vi sua solidão e a pedra sobre a qual orava. O staretz foi grande e conseguiu esta grandeza exercitando-se na Oração de Jesus.

- Também se pode praticar a Oração de Jesus no mundo?

- Sim. E possível. Encontrei alguns que a praticaram. Mais entre os comerciantes que entre os nobres, embora entre estes haja também pessoas piedosas. Por exemplo, Sibiriakov, rico mercador que fazia muitas doações ao mosteiro de santo André, no Atos onde se consagrou. Moisés Putilov, arquimandrita de Optina, também era mercador, e quando estava ainda no mundo, rezava a Oração de Jesus. Nemitov de Orlov e outros. Também aqui em Nijni, conheci muito bem uma pessoa, quando eu era recém-casada. Eu tinha vinte anos e ele tinha cinqüenta. Era o terceiro filho de um comerciante milionário e obteve a bênção de seu pai para entrar no mosteiro. Foi pedir conselho ao falecido staretz Ambrósio de Optina e este lhe respondeu com um refrão, como era seu costume: "Você sabe, o que é severo vai a Sarov e o obstinado a Valaam. Não creio que você seja severo, mas muito insistente.

Você é um homem firme. Dirija-se, então, a Valaam e ali você aprenderá de tudo".

Esteve ali durante alguns anos e quando estava para receber o hábito, seus dois irmãos maiores morreram, deixando crianças pequenas e um pai ancião.

O staretz abençoou seu regresso ao mundo. Só lhe recomendou que nunca deixasse a Oração de Jesus. E soube levar muito. bem todas as circunstâncias da vida com nobreza, honestidade, sem engano e sem prejudicar os pequenos.

Quando os sobrinhos cresceram, ele lhes entregou os negócios e se retirou a um mosteiro distante, na Sibéria, onde se consagrou, entregando-se à solidão. Morreu com mais de oitenta anos. Contou-me minha falecida mãe que quando ele ainda vivia no mundo, sempre sentia saudade do mosteiro. Era assim que devia ser, porque aqui no mundo tudo passa. 

11. Novo Valaam: o Abade João do Novo Valaam

Um dia de agosto, estávamos sentados conversando no jardim do Novo Valaam, o abade João e eu. Ainda que estivesse o tempo parado e brilhasse o sol, sentia-se já a aproximação do outono. A manhã tranqüila brilhava dourada pelo sol, e o ar era translúcido.

- Padre João, diga-me se há alguém que abandona a Oração de Jesus.

- Como não? O demônio se mete em toda a parte. Se um demônio procura tentar um leigo, ao monge o tentam dois, e ao que pratica a Oração de Jesus, três. Você leu a "Antologia da Oração de Jesus" e "Conversações sobre a Oração de Jesus" que editou o falecido Cariton?

- Li-as.

- Ali se fala muito disto, de sua substância e da necessidade de uma profunda humildade e de não se sobre-valorizar quando se reza esta oração, como fazem alguns. Para que rezamos? Para que lembrando-nos continuamente do Senhor e arrependendo-nos de nossos pecados, cheguemos à serenidade espiritual, ao silêncio interior, ao amor do próximo e à verdade. Então vivemos em Deus, que é amor.

Mas há pessoas que consideram esta oração como uma magia com a qual conseguem a adivinhação de pensamento, o dom de milagres e de cura, etc. Este proceder é muito pecaminoso, e os que assim agem, são enganados pelo demônio que lhes concede certos poderes e logo, com eles, os faz perecer para sempre.

Eu fui abade em Pechenguy, que está muito distante, no litoral do oceano Ártico. No verão o sol não se põe durante três meses, e no inverno, há três meses de noite, e se encontra numa imensa solidão: o oceano tempestuoso, a desolação e, por todas as partes, as melancólicas tundras.

Acontece muitas vezes que os que oram intensamente nestas condições, chegam a desgastar-se. Alguns monges enlouquecem e começam a ouvir vozes e ter visões. Um deles começou a ouvir vozes como de anjos em sua cela. Estas vozes lhe diziam que já havia alcançado grandes alturas espirituais, que poderia fazer milagres como o Salvador e andar sobre as águas. O pobre se deixou convencer e quis comprovar o fato por si mesmo, caminhando por sobre uma fina capa de gelo, como não tivesse peso algum. O resultado foi que se afundou nas águas. Como gritou, o salvaram, mas adoeceu por causa da água gelada e logo morreu arrependido. Este é um caso extremo, mas a outros o demônio os vence de outro modo: rezando e vendo em si mesmos certo progresso espiritual, começam a vangloriar-se e a considerar a todos indignos e inferiores a si, e crêem que são vasos escolhidos de Deus. Estes, em geral, condenam a todos, se irritam facilmente, quando os repreendem e sempre estão inquietos. Embora o apóstolo São Paulo tenha dito que os que invocam o Senhor Jesus Cristo e o confessam como Filho de Deus serão salvos, o mesmo Salvador nos ensina que "nem todo o que diz 'Senhor, Senhor', será ouvido, mas o que cumpre a vontade do Pai Celestial". E apesar de estes invocarem o Senhor, o seu coração está longe dele. É necessário, então, acrescentar à oração a observância dos mandamentos, porque a fé sem as obras é morta e as obras feitas com fé alcançam a perfeição.

- E como saber a quem a pessoa deve dirigir-se em busca de conselho, Padre?

- Procure um staretz sereno, bondoso, humilde, que se conserve na paz de sua consciência e no silêncio interior, isto é, que a ninguém condene. Mas fuja dos que estão descontentes, apegados ao dinheiro e que julgam a todos, porque a sua companhia poderá perverter você. Lembre-se, contudo, que com a orientação de um staretz se pode viver um tempo, mas quando se começa a fazer oração e a vigiar os pensamentos, para que você precisará mais de staretz? Não se pode permanecer sempre criança. Temos de nos tornar responsáveis com os anos e pode ser que, com o tempo, você mesmo chegue a ser um staretz.

- Como pode ser isto?

- Muito simples. O staretz é um homem rico em experiência espiritual e sabedoria e com um grande amor a todos. Os staretzs podem ser simples monges, como o supra citado Zosima Verjovsky de quem Dostoievsky copiou seu staretz Zosima: leia a sua vida e você mesmo verá. Assim também foram São Basílio, João de Moldávia, o glorioso santo staretz abade Melquisedeque, que viveu até os cento e vinte anos. O staretz Daniel Aginsky, grande santo e mestre da Sibéria, e Kuzma Bisrky eram simples leigos e iam procurá-los não somente leigos, mas sacerdotes e até monges e bispos em busca de seus sábios conselhos. E houve um grande staretz: o autor dos Relatos. Soube que foi um camponês de Orlov, segundo um manuscrito que encontrei entre a correspondência do Padre Ambrósio de Optina e que tinha sido encontrado no mosteiro de são Panteleímon, no Atos. Provavelmente, este peregrino, voltando da Terra Santa a seu lar na Rússia, passou pelo Atos, como faziam muitos e contou suas viagens ao staretz Jerônimo Solomentsev. Este ordenou talvez que ele as escrevesse; ele as terá escrito e talvez tenha ficado no Atos.

- As peregrinações são uma façanha, Padre João?

- Sim, e somente a loucura por Cristo a consegue, e não é permitida senão a poucos e sempre com a bênção de algum santo staretz. Se não podemos suportar o pequeno, como poderemos suportar o grande? O staretz Leônidas de Optina costumava contar a estória seguinte: Havia um monge que sempre o molestava pedindo-lhe que lhe permitisse usar cilício e o staretz respondia: "Para que queres usar cilício? Ser monge já é um cilício pesado, se fores monge como deves ser". Mas o monge continuava pedindo. Por fim o staretz lhe permitiu, mas, chamando o monge ferreiro, lhe disse: "Amanhã irá um monge procurá-lo pedindo-lhe que lhe faça um cilício. Então você lhe dirá: "Para que você quer cilício? E dê-lhe uma boa bofetada". No dia seguinte, chegou o monge muito feliz, e disse ao staretz que tinha pedido ao ferreiro que lhe fizesse um cilício e, como resposta, ele lhe tinha dado uma bofetada. "Bem - disse-lhe o staretz - se não suportas uma bofetada e vens logo queixar-te, para que queres usar cilício? Não se deve pedir mais do que o que se pode dar".

- O Padre Mijail lhe disse: "Irmão, semeie a boa palavra em toda a parte, nos espinhos, no caminho e nas pedras; pode ser que cresça e dê fruto até cem por um". Que pensa sobre isto, Padre?

- Se foi o Padre Mijail quem disse isso, tem -se de ouvir. Semeie a boa palavra em toda a parte e será "peregrino" como o Peregrino. Isto, irmão, não é uma pequena façanha.

- Poderei perseverar, Padre?

- Com fé, você poderá, porque está escrito: "Tudo posso naquele que me conforta". Exercite-se na Oração de Jesus e ela o estimulará para você o conseguir.

12. Mosteiro de São Panteleímon no Atos: Padre Misail

Em 1951, encontrei-me com o Padre Misail no Atos, quando ele era hospedeiro no mosteiro de são Panteleímon. Era alto, esguio, de inteligência clara e boa memória, piedoso e afável. Chegou ao Atos em 1896 e gostava de contar que, de caminho, tinha passado por Moscou, quando estavam preparando a coroação do Imperador Nicolau II, a quem admirava ainda mais que o staretz Mijail.

Um dia eu estava em minha confortável residência, onde tinha na parede os retratos do imperador Alexandre II e sua esposa, e do metropolita Filaret. A janela e as portas que davam para a sacada, assim como os pilares estavam cobertos de glicínias em flor que se estendiam de uma parte a outra. Abaixo viam-se os edifícios dos mosteiros e das igrejas, os jardins, as montanhas e o céu azul inundado da luz clara da manhã.

Sentado à janela, pensava no manuscrito que tinha encontrado numa seção da rica biblioteca do mosteiro, o manuscrito dos "Relatos de um Peregrino", escrito com uma preciosa grafia e anotado no registro, na seção de edições várias de contos impressos. Sem dúvida, diante de mim estava o original com que o arquimandrita do mosteiro Chereminskovo de Kazan tinha editado seu livro. Interessou-me o fato de que, comparando o original com o livro, neste haviam sido omitidos não só parágrafos inteiros, mas também duas extensas narrações. Bateram à porta e entrou o Padre Misail.

- Disse a Basílio que trouxesse chá e pão com doce para um lanche.

- Preocupa-se muito comigo, Padre Misail; isto me confunde.

- Como não preocupar-me? Você é um hóspede fora do comum. É raro vir um russo a este lugar, como acontecia antes. Quando vemos isto? Sobretudo vêm estrangeiros, protestantes e católicos, e com mais freqüência curiosos, sem a verdadeira fé, só para ver como é. Vão de um mosteiro a outro, e temos que lhes mostrar tudo e destinar-lhes, para isto, uma pessoa. Mas você se preocupou com o manuscrito. Está muito bem escrito em russo.

- Olhe, Padre Misail, este é o original dos "Relatos de um Peregrino". Provavelmente, o Peregrino esteve no Atos e escreveu suas viagens para seu padre espiritual, o hieromonge Jerônimo Solomentz. Quando o arquimandrita de Kazan publicou o livro, tirado do manuscrito, omitiu não poucas coisas: entre outras, duas extensas narrações.

- E por que as terá omitido?

- As pequenas omissões se entendem. O peregrino se opõe tenazmente aos teólogos da academia, dos quais procediam os arciprestes. Tão livre maneira de pensar podia desgostar a hierarquia ou trazer dificuldades com os arquimandritas, e isto ele não queria. O peregrino criticava a miúdo a antiga escolástica que se ensinava, por isso o arquimandrita pulou duas narrações as quais, segundo ele, podiam perturbar os monges que as lessem. O manuscrito era feito por um leigo para seu padre espiritual.

- E que contavam estas narrações?

- Na primeira, cujo princípio se encontra no livro, conta-se que o peregrino pernoitou uma vez numa hospedaria de fama suspeita e acordou quando os cavalos de uma tróica conduzida por um cocheiro bêbado se precipitaram na isbá, fazendo em pedacinhos a janela debaixo da qual ele dormia. E o manuscrito dizia que, quando o peregrino se dispunha a dormir, aproximou-se dele uma mulher com más intenções e começou a acariciá-lo, o que lhe despertou as paixões, e a oração acostumada que morava nele se deteve. O peregrino provavelmente teria caído em pecado, se não estivesse ali uma tróica. A mulher, fortemente impressionada, adoeceu, mas foi curada mais tarde, pela oração do peregrino.

- Sim, é uma grande coisa a Oração de Jesus, Sérgio Nicolaevich - observou o Padre Misail. Na realidade, salva da morte e da vergonha. Por outra parte, isto é certo: quando se levanta a paixão carnal, a Oração de Jesus cessa. Então precisa-se de um grande esforço para recuperá-la.

- Parece então que esta oração a praticam pessoas casadas. Como assim? - perguntei-lhe.

- Que erro! Uma coisa é um casamento abençoado e legítimo e outra é a paixão carnal, para não dizer o adultério, quando apareceu a mulher de outro ao peregrino. Naturalmente, o arquimandrita pensou que ele não sabe distinguir as coisas e certamente pode escandalizar-se. E você sabe o que acontece com os que causam escândalo? Mais lhes valeria não ter nascido. O demônio é astuto, vence-nos de uma maneira ou de outra, e pode matar em nós até a mais elevada oração, se não temos humildade. Compreende?

Cheguei aqui, há muito tempo, em 1896. Vi o Padre Stratonik que admirava o Padre Siloan, a respeito do qual escreveram o Padre Sofronos e também o Padre Hilário, o mesmo que foi ser anacoreta e escreveu: "Nas montanhas do Cáucaso". Este era um bom livro, do qual foram feitas duas edições, aprovadas pela censura. O Padre Hilário não é acadêmico e se expressa com pouca clareza, mas sua fé é verdadeira. Caiu este livro nas mãos de dois discípulos aristocratas, do Padre Antônio Bulatovich, do mosteiro de santo André, e do Padre Alexei, de nosso mosteiro, e começaram a discutir sobre ele.

Para um, o livro estava cheio de sabedoria e verdade, e para o outro, cheio de heresias. Suas discussões escandalizavam a não poucos monges simples, e em seguida começou a confusão. Foi necessário expulsar do Atos cem monges. Juntou-se a isso a guerra e teve início a queda do Atos russo. E agora, onde chegamos? Ficaram alguns velhos, mas nenhum jovem. Se os Padres Antônio e Alexei se tivessem dedicado à Oração de Jesus com humildade de coração, não se teria desencadeado semelhante escândalo. Como se pode orar e insultar-se? Há orgulho, intolerância e ambição. Como se pode rezar a Oração de Jesus e continuar pecando sem arrepender-se? Esta oração certamente os condena.

- E como pode saber-se, Padre Misail, quem é o homem que se esforça devidamente para santificar-se?

- Conhece-se logo, porque ele não julga ninguém. Conta-se do arquimandrita Isaac de Optina que, quando os monges vinham queixar-se uns dos outros, os escutava com bondade, mas acabava indefectivelmente exortando-os a que se perdoassem mutuamente. O Padre Isaac não julgava ninguém, mas os padres Antônio e Alexei não procederam assim e terminaram mal. Permaneça sempre em paz, Serguei, e você se salvará.

13. Iuriev: Sérgio Mironovich Paul

Em 1924 conheci Sérgio Mironovich Paul em Iuriev (Tartu, na Estônia). Era o filho mais velho de M.A. Paul, primeiro vice-governador estônio que chegou a ocupar este posto. M. A. Paul formou-se na academia teológica de São Petersburgo, onde foi um dos alunos favoritos do arquimandrita Antônio Krapovitsky, que foi mais tarde metropolita de Kiev.

Depois de sair da academia, entrou no serviço civil escalando posições até chegar a vice-governador. Morreu no cargo, no umbral de uma brilhante carreira. Sérgio Mironovich, ao terminar sua educação secundária, entrou na universidade, e durante a guerra cursou a Escola Militar, de onde saiu como oficial. Lutou na Primeira Guerra Mundial e depois na guerra civil. Foi gravemente ferido durante a guerra, na marcha do Ártico. Uma bala entrou-lhe pelo olho esquerdo e saiu pelo ouvido direito, ficando cego de um olho e surdo de um ouvido. Algumas partes do cérebro ficaram lesionadas, de modo que tinha de ser operado do cérebro cada três anos. Mas tudo isso não o irritava nem alterava. Sérgio Mironovich sempre estava de bom humor. Era bondoso e nunca julgava ninguém. Só conheci outro homem tão especial como ele: o falecido arcebispo de Cantuária, William Templar.

Ao voltar à Estônia, Sérgio Mironovich terminou brilhantemente a universidade de Iuriev e quando devia preparar-se, como professor, para assumir a cátedra de química, entrou para o noviciado no mosteiro de Pskov.

Havia algo em Sérgio Mironovich que lembrava o príncipe Mishkin de "O Idiota", de Dostoievsky, e mais ainda a Aliosha Karamazov. Como este, jamais se preocupava com o que comer, com o que beber ou com o que vestir, e se arranjava muito bem. Nunca pensava em sua carreira. Era simples, embora fosse muito culto e erudito. Dava tudo o que tinha. Esteve três anos no mosteiro de Pskov, mas não chegou a professar, pois, como Aliosha Karamazov, voltou ao mundo, e o fez como ele, por ordem de seu staretz, o hieromonge Basian, que morreu aos noventa e três anos, num mês de agosto da década de 50.

Sérgio Mironovich, - disse-lhe o Padre Basian - volte ao mundo. Lá há pessoas que necessitam de você, muito mais do que aqui. Ensine-lhes com o exemplo de sua vida, e chegará o momento em que você voltará, se Deus assim o permitir.

Depois de sua saída do mosteiro, Sérgio Mironovich viveu um tempo na casa de meu falecido irmão Constantino, e mais tarde foi nomeado administrador de um laboratório químico. Morreu, segundo ouvi dizer, por volta dos anos 40.

Sérgio Mironovich tinha aprendido a Oração de Jesus quando ainda estava no mosteiro sérvio, no começo do ano de 1920. Fez admiráveis progressos nela e conseguiu logo o silêncio interior, a contínua serenidade e a alegria.

Eu o encontrava com freqüência em luriev e no mosteiro de Pskov. Um dia veio à cela que eu ocupava. Esta cela era das antigas, do tempo de São Cornélio. Nela, segundo a tradição, haviam estado Ivan o Terrível, e Pedro o Grande. Ali viveu o hieromonge Lázaro, a quem visitou Alexandre, e o monge ermitão Teodósio, a quem visitou Nicolau II. A cela comunicava com a igreja por uma caverna, e as cavernas por meio de corredores.

- Irmão Sérgio - perguntei ao noviço como está se adaptando à nova situação?

- Muito bem, melhor que na Sérvia, onde havia muitos intelectuais russos. Sem eles é melhor.

- Por quê?

- Porque a gente simples, como a daqui, é íntegra, e os intelectuais se afastaram de uma margem e não chegaram à outra. Lutam entre si. Perderam a antiga e íntegra fé dos antepassados. Aqui somente o superior e um hierodiácono receberam educação, mas os outros são simples e obscuros camponeses. Quando cheguei, meu staretz o Padre Basílio, padre espiritual do mosteiro, medisse: "Olhe, Sérgio Mironovich, você já viveu num mosteiro da Sérvia e conhece o que é esta vida. São Teófano, o Recluso, escreveu com sabedoria: 'Se você está no mosteiro, se dedique à solidão, à igreja e à cela'. Na sua cela, você aprenderá tudo, mas se começar a buscar conversa com os irmãos e a escutar tudo o que se diz, não só terminará por sair do mosteiro, mas acabará perdendo a fé. Você se admirará de ver quantos anos vivem alguns em comunidade e, no entanto, estão cheios de inveja e vanglória e vazios por dentro. Você aprendeu a Oração de Jesus. Exercite-se nela e, para se aconselhar, dirija-se ao Padre Arcádio, que ele sabe muito. Assim vivo eu, negando-me a todo diálogo e conversa. Por isso, me consideram orgulhoso".

- Sérgio Mironovich, é muito útil a Oração de Jesus?

- Muito. Mas tem de ser feita com espírito manso, pois alguns caem facilmente na soberba espiritual e se sobreestimam a si mesmos.

- Sérgio Mironovich, muitos estudam o hinduísmo e o budismo, mas ali não é como aqui.

- Certamente não o é. Segundo os hindus e os budistas, toda dor vem da ignorância e do apego ao mundo, o qual se encontra no mal, e a salvação consiste no aniquilamento da personalidade que se apaga como uma vela ou se dilui como uma gota de água no oceano. Mas ali também existem pessoas maravilhosas. A propósito, ouvi uma estória: no mosteiro do marajá Indi, um dos mais ricos e principais personagens, vivia Divan, um primeiro ministro que era parente seu, jovem, rico e sábio. Todos o invejavam. Um dia, estando num banquete da corte, um dos hóspedes aproximou-se dele e lhe disse: "Você é um homem muito feliz. É conhecido, rico, jovem, sadio. Tem uma família maravilhosa e todos os bens da terra". E Divan lhe respondeu: "Você acredita que os bens da terra trazem felicidade? Não são por acaso um impedimento para se conseguir a verdadeira felicidade, que é a liberdade de espírito?"

Esta mesma tarde, Divan chamou um criado seu, vestiu diante dele a túnica monástica, tomou um báculo e desapareceu para sempre. Entre os hindus, quem se faz saniasi é um morto em vida, pois perde sua casta e tudo o que possui, mas conquista a suprema liberdade espiritual, sem nenhum vínculo. Há pessoas, entre os hindus e budistas, capazes de grandes sacrifícios, para 'conseguir a liberdade de espírito, mas nós temos um caminho melhor, do qual nos diz o Evangelho: "Buscai a verdade e a verdade vos tornará livres".

- Quer dizer que você veio para o mosteiro em busca da verdade?

- O mosteiro, Sérgio Mironovich, é escola de espiritualidade, como escreve são Bento, que você venera, porém não é uma escola formal como o seminário, mas uma experiência espiritual.

- E encontra o que busca?

- Sobre isto o staretz sabe mais que eu. Quisera ficar aqui, mas se o staretz me mandar para o mundo, irei como foi Aliosh Karamazov, com a bênção do staretz Zosima. E sabe de uma coisa? Você está mais perto de Aliosha que eu; Em mim existe ainda alguma coisa do príncipe Mishkin. Você está aqui há três meses: observa, aprende especialmente com os Padres Arcádio e Basian, e isto lhe será necessário a seu tempo, quando começar a vida de peregrino para o Oeste, entre gente de outras culturas e de outras mentalidades. Mas sobretudo, conserve a Oração de Jesus: eu me mantenho só com ela.

Sabe a que conclusão cheguei depois da guerra civil? Não praticar jamais a violência. Do ponto de vista cristão, em vez de vingança e irritação, é melhor a submissão. A violência não é eterna e prejudica mais o violento que a sua vítima. Na guerra civil se cometiam atrocidades de ambos os lados. E com que resultado? Os brancos foram vencidos e os vermelhos se devoram e se destroem uns aos outros, e isto é só o princípio; logo virão as conseqüências.

Devemos abandonar tudo isto e nos lembrar que Deus é amor e que temos de adorá-lo em espírito e verdade. Com a Oração de Jesus se adora em espírito e em verdade.

14. Pequeno Glossário

Apatheia: A impassibilidade que, na doutrina de Evágrio Pôntico (+ 399), ocupa um lugar essencial na espiritualidade do monge.

Atos, Monte: Península montanhosa da Calcídica, na Grécia, que desde a antiguidade é local de mosteiros e eremitérios. Nesta Península, levaram e levam vida monástica milhares .de ortodoxos, de todas as nações. É o centro espiritual da Ortodoxia, pelos seus santos e pelo vigor da tradição monástica. Atualmente está povoado o Monte Atos por uns dois mil e quinhentos monges, e se rege de forma quase autônoma.

Hesycasmo: Do grego hesyquia, que significa calma, quietude, paz espiritual, e acaba por designar os estados mais elevados da vida monástica, especialmente o eremitismo.

Katholikon: A igreja central nos mosteiros do Atos.

Louco por Cristo (yurodivi): Na Rússia eram venerados com especial respeito os simples de espírito, ou quem por humildade os imitava e em seus gestos e palavras se descobriam sinais proféticos. Apesar do perigo certo de encobrir originalidades que nada têm que ver com a santidade, a tradição nos confirma que houve casos de autêntica e provada virtude entre os que seguiram este caminho espiritual.

Staretz: Padre espiritual, o sucessor dos antigos Padres do Deserto, que à santidade de vida e experiência une muitas vezes dons como o discernimento e a visão. A ele recorre o discípulo para interrogar sobre a própria vida.

Velho-crente: Os fiéis que não aceitaram, por fidelidade à tradição, as modificações impostas na liturgia e na disciplina da Igreja russa por Nikon, Patriarca de Moscou, no século XVII, e permaneceram apegados a seus antigos ritos, fora da comunhão da Igreja oficial.

Notas:

* Cf. Palavras dos antigos - sentenças dos padres do deserto, Ed Paulinas, São Paulo, 1985.

3. Peregrinando...

 

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