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A vida monástica na Igreja Ortodoxa

Panayiotis Christou 

Tradução: Pe. Paulo Augusto Tamanini

A origem da vida monástica 

urante o IV século de nossa era surgiu dentro da Igreja um forte movimento de afastamento da sociedade organizada para o deserto. Um movimento que teve um crescimento ainda maior no período seguinte. Para interpretar este repentino movimento, os historiadores propuseram diversas hipóteses, sendo duas delas as mais aceitas. 

A primeira hipótese: a vida monástica teria sua origem nas religiões orientais, naquelas que praticavam o ascetismo já há muitos anos, tanto em absoluta solidão como em monastérios.

A segunda hipótese: a vida monástica proporcionava uma saída quando o contato próximo do cristianismo com o mundo provocava uma reação com ele, um inevitável desleixo das normas morais.

A primeira das hipóteses carece de fundamento, pois é impossível descobrir historicamente uma conexão entre o ascetismo oriental e a vida monacal cristã. Ademais, se o cristianismo tivesse recebido tal influência e, sendo assim, estamos afirmando que a vida monástica teria surgido dos grupos ascéticos dos essênios, como explicar o fato de a vida monástica ter surgido muito tempo depois do desaparecimento das comunidades dos essênios? O que não significa, contudo, que em suas etapas posteriores, a vida monástica não tivesse certas características comuns com as comunidades dos essênios e com as comunidades neo-pitagóricas.

A segunda hipótese é igualmente inaceitável posto que existiam numerosos ermitões vivendo livremente, já antes mesmo do reconhecimento do cristianismo por Constantino, o Grande. 

A vida monástica é um modo de vida que surgiu dentro da Igreja e se desenvolveu organicamente levando até seus limites os princípios da moral cristã. Com efeito, ainda o cristianismo não nasceu como uma filo pessimista, nem como uma força com pretensões de dissolver a sociedade. Regia-se, evidentemente, por princípios diferentes dos da sociedade daquele tempo. Dava atenção àquilo que é o centro da vida e se despreocupava com as coisas periféricas. Uma coisa tinha valor supremo para o homem: a alma. Colocada ao lado do mundo, este insignificante. "E que aproveita o homem ganhar todo o mundo se perder sua alma" ? (Mt 16, 26). As coisas do mundo dificultam os movimentos da alma, e os bens do mundo se acumulam em sua volta, sufocando-a e impedindo que se desenvolva harmoniosamente.

Por conseguinte, para o homem que pretende libertar-se do seu próprio "eu" é esperada uma árdua luta. Esta luta é entre o "eu" que pertence ao mundo com o "Eu" superior e ideal que possibilitará ao homem apresentar-se diante de Deus. Neste esforço, tal como declarou Jesus Cristo, o homem deverá submeter-se a si mesmo como também seus atos a um rigoroso exame. É necessário abandonar muitos bens mundanos para obter o tesouro celestial e submeter-se a prova do sofrimento para purificar sua vontade. 

Baseando-se nestes princípios, os primeiros cristãos viviam de acordo com um plano moral excepcionalmente elevado; mas alguns deles quiseram ascender a uma austeridade maior, privando-se de mais bens e submetendo-se a uma maior auto-moderação, com jejuns e oração. 

Para um cristão o matrimônio é algo honrável, um grande sacramento, mas não deixa de ser uma instituição deste mundo. Por esta razão, quem podia, evitava-o; alguns buscaram uma alternativa, substituindo-o por uma espécie de matrimônio espiritual, na qual o homem e a mulher conviviam em pureza (1Cor 7,36 ss). Muitas viúvas evitavam um outro matrimônio, e as virgens se negavam a casar-se. Estas mulheres se organizavam em sociedades especiais, em primeiro lugar para se proteger ,e em segundo, para concentrar suas atividades em trabalhos sociais. É aqui onde encontramos a primeira forma de vida monástica que se desenvolveu dentro das comunidades cristãs organizadas.

O desenvolvimento da vida monástica 

Em meados do século III, a perseguição aos cristãos era tal que muitos se viram obrigados a retirar-se das cidades. No inicio do século IV, a situação piorou ainda mais, e as perseguições se intensificaram . Aqueles que se tinham retirado anteriormente, deveriam permanecer por mais tempo. Acostumaram-se tanto a viver nestes lugares a ponto de estabelecer lá uma morada permanente, longe da sociedade do mundo. 

Cessaram as perseguições , mas a perseguição mundana havia chegado a ser um elemento inseparável da vida dos cristãos, e muitos não podiam conceber uma vida livre de perseguidores. Deste modo se converteram em perseguidores deles mesmos: subiram para as montanhas e se submeteram as privações e sofrimentos. No lugar do "sangue do martírio", resultante da luta entre homens violentos, submetiam-se, eles mesmos "ao martírio da consciência", que consistia na luta contra os demônios. Tempos depois, as montanhas converteram-se em moradas dos ermitões e, gradativamente, em moradas de comunidades organizadas de monges. Com o passar do tempo, cada vez mais os lugares remotos eram buscados como refúgios para os ascéticos, como por exemplo, o Monte Athos e Meteora. Quanto mais longe viviam os ascetas, maiores eram a reverência e a admiração que evocavam das pessoas comuns. 

O primeiro ermitão conhecido foi Paulo de Tebas, mas o primeiro guia da vida no deserto foi Antão, o Grande (356,) cuja vida foi escrita com perspicácia e amor por Atanásio, o Grande. Viveu no deserto mais de setenta anos e só ia à Alexandria quando a ocasião requeria, ou seja, quando sabia de alguma perseguição, dava ânimo aos que sofriam. Sua fama chegou a Constantino, o Grande, que recorria a ele  com freqüência para ter seus conselhos, mediante carta. Mas em particular despertou o entusiasmo de muitos homens simples que imitaram seu exemplo. Levavam uma vida de total isolamento, e somente quando necessitavam conselhos visitavam S. Antão ou algum outro monge maior, ou um abade. Às vezes sucedia que um desses monges maiores falecia, mas passavam dias até que os outros soubessem e pudessem sepultá-los. Cada anacoreta organizava sua própria oração, refúgio, vestuário, alimento e trabalho. O trabalho consistia principalmente em fazer objetos de palha (artesanato) que eram vendidos nos mercados da região. Somente aos domingos caminhavam até a Igreja mais próxima, para rezarem juntos e receber a Sagrada Comunhão. Deste modo, a vida dos ermitões ficava fora do controle total da Igreja. Era evidente que o isolamento absoluto conduzia a ações arbitrárias e não aderia a todas as exigências do Evangelho cristão. Em primeiro lugar, não havia supervisão espiritual dos ermitões e em segundo, suas atividades eram concentradas no serviço ao próximo. Disto se deram conta alguns dos grandes ascetas que empreenderam uma oportuna reforma: Hilário, na região de Gaza; Amônio, em Nitria e Macário em Sketis (Egito). Os três viveram durante o século IV. Fizeram do principal mercado da região, onde os monges vendiam seus produtos, seu centro de ação. Estes mercados receberam o nome de "lavras", mais tarde os estabelecimentos de mercado junto aos monastérios receberam este mesmo nome. 

Os eremitões viviam em numerosos aposentos construídos em torno às lavras a tal distancia que não se podiam ver nem ouvir uns aos outros. Nesta vida comunitária, a independência se submetia a certo limite; ademais, na ascese era possível um elemento de flexibilidade. De tempo em tempo, o chefe da lavra examinava os aposentos e exercia certo grau de autoridade sobre os monges. Todos se reuniam pra a oração em comum aos sábados e domingos.

O sistema cenobítico

Pacômio (346), no Egito, deu um passo adiante. Além da administração e da oração, colocou sob sua supervisão o refúgio, as vestes, a dieta e o trabalho dos monges. Habitualmente viviam em dormitórios espaçosos. Pode-se dizer que, com o sistema de vida monástica, onde os monges vivem juntos, seria mais fácil viver. 

O sistema comunal de vida permitiu que também as mulheres se dedicassem a ascese, optando pela vida monástica. Para elas era perigoso viver totalmente no isolamento. A principal vantagem deste sistema era que o monaquismo poderia participar das atividades filantrópicas.

Que a vida monástica tomasse esta direção, foi a principal obra de Basílio, o Grande (378), Bispo de Cesaréa. Viveu em solidão durante algum tempo em seu sitio, em Ponto, com os membros de sua família. Ali escreveu sua principal obra, "Ascética", que se transformou na base da organização do monaquismo durante o período seguinte. Recomendava aos monges que se reunissem em grupos organizados, de acordo com a natureza social do homem: 

"O homem é um ser dócil e social e não um selvagem e solitário. Já que não há nada que caracterize mais nossa natureza que a de associarmo-nos uns aos outros, necessitamos uns dos outros, e necessitamos amar nossa espécie" (Normas gerais 3,1 Pg 31, 947). 

De acordo com esta norma, os monges deveriam voltar do deserto às cidades e fundar nelas cenóbios filantrópicos. O mesmo Basílio voltou à Cesaréa e organizou um grupo inteiro de instituições beneficentes, que mais tarde receberam, em sua honra, o nome de basílios. Desde o inicio a direção destes basílios estava nas mãos dos monges a quem chamavam "pais dos órfãos".

O cenóbio poderia considerar-se como a forma final do monaquismo, mas não é assim. Num primeiro momento necessitou o jugo dos ascetas, mais tarde, com certeza, foi mais difícil de suportar. Por este motivo, surgiu na Idade Média uma tendência dirigida a um modo de vida menos estrito que resultou na constituição de uma vida "idiorritmica" . Os "contemplativos", isto é, aqueles que se dedicam à contemplação de Deus, tratavam de exonerar-se de trabalhos práticos e sociais, cuja finalidade era de que nada impedisse seu trabalho espiritual, ao mesmo tempo, os monges mais idosos (ou enfermos) buscavam uma suavização da disciplina. 

Nos monastérios idiorritimicos, a administração, as vestes, a oração, e até certo ponto, a residência, eram comuns. A dieta e o trabalho ficavam fora de controle. Assim aos monges se lhes permitiu a aquisição de propriedades privadas que não poderia superar certos limites. Deste ponto de vista, a vida idiorritimica se pode considerar como um retorno ao sistema comunal da "lavra". Também é uma combinação dos modelos eremitas e comunal de monaquismo. Estes diferentes tipos de monaquismo seguem paralelos ao longo dos séculos. Dentro da tradição eremítica surgiram variações diferentes e interessantes, adotando em certas ocasiões formas extremas. Os confessores se fechavam durante muitos anos em seus aposentos, comunicando-se com o mundo exterior unicamente mediante carta, e para receber sua exígua porção de comida . Os estilitas viviam em ruínas semi-destruídas. Os "loucos por Cristo" viajavam ostentando sua loucura por humildade.

Todas essas modalidades de vida monástica até hoje existem. Os ermitões, podemos encontrá-los quase que exclusivamente nos pontos mais remotos da península do Monte Athos. Os outros dois sistemas, o cenobítico e idiorritimico, nos mosteiros que se espalham em todas as regiões ortodoxas.

A difusão geográfica do monaquismo

Hoje em dia a vida monacal se estendeu por todo o mundo, mas muitos esforços foram necessários para alcançar esta realidade. O movimento teve seu início, como vimos, no Egito, onde importantes centros monásticos, com milhares de monges, se desenvolveu com rapidez, vivendo os monges em suas celas, em lavras e em monastérios. Estes estavam situados em Tebas, Nitria, Sketis e no Monte Sinai. O Monastério de Santa Catarina, no Sinai, fundado na época de Justiniano, permanece até nossos dias sem haver perdido nada de seu vigor. Do Egito se expandiu rapidamente para a Palestina. Este país, santificado como era pela vida e morte de Jesus Cristo, atraiu o interesse dos ascetas de todos os rincões do Império, entre os quais os latinos Jerônimo e Rufino. Mais tarde na Palestina, Teodósio, o Cenobita; Savas, o Santificado e Eutimio, o Grande, fundaram quinhentas grandes "lavras".

Os ascetas fizeram sua aparição na Síria nas primeiras décadas do século IV. Normalmente se tratava de homens e mulheres ambulantes; estas últimas se vestiam como homens. Pretendiam abolir todo o tipo de diferença entre os sexos e evitavam trabalhar. Devido a posição dominante que outorgavam a oração foram chamados de "euquitas" ou, em língua siríaca,  "mesalianianos". Devido a alguns desvios, recebiam críticas por parte da Igreja.  

Ao mesmo tempo, a forma mais moderada de monaquismo organizado chegava a Síria. O grande hinógrafo e teólogo Efrain, o Sírio, também fez esforços frutuosos com intenção de organizar a vida monástica. O monaquismo começou a perder terreno nestes três países desde o início do século VII, quando os árabes invadiram estas regiões. Mas nunca desapareceu por completo. Atualmente, além dos ortodoxos, os coptas, os armênios e os nestorianos têm seus monastérios nestas regiões.

Através da Capadócia e da Ásia Menor, o Monaquismo chegou à Capital do Império, Constantinopla. Muitos dos monastérios que foram fundados nos subúrbios de ambas partes do Bósforo, se converteram em organizações florescentes; e, através de suas atividades, exerceram uma influencia no curso dos assuntos eclesiásticos e também políticos. O monastério dos Insomnes, fundado por Alexandre (430), recebeu este nome porque os monges oravam a Deus durante dia e noite, dividindo-se em três grupos que se alternavam na Igreja.

O monastério de Studion, fundado também no século V, pelo patrício romano Studios, chegou a ser o centro do desenvolvimento litúrgico da Igreja Oriental. Teodoro, o estudita, século IX, foi um exemplo para todos os monges, devido a seu comportamento heróico. Em todas estas regiões as conquistas turcas acabaram com os monastérios. 

Na Grécia, no entanto, já se haviam formado fortes centros de monaquismo. Entre os quais destaca-se o Monte Athos, desde o século XI. Quando, a partir de então, recebeu a denominação de "Santa Montanha" ou "Montanha Sagrada".

Em 963, o imperador Nicéforo Focas decretou que concedia ao monge Atanásio o direito de fundar naquele lugar uma grande lavra,e assim o fez. Em um breve espaço de tempo se estabeleceram ali outras comunidades de monges e submeteram a supervisão geral de Protos. Com o fim de promover a difusão do monaquismo na região, o Imperador Alexius Comnenus determinou que todos os centros de Monte Atos ficassem sob a jurisdição do Bispo mais próximo, o de Lerissos. E naturalmente produziu-se dificuldades entre Lerissos e Protos, o qual fez necessária a abolição da jurisdição do Bispo Lerissos. Isto aconteceu no final do século XIV.

Protos do Monte Athos tomava posição, uma vez obtida a aprovação por parte do Patriarca de Constantinopla. A principio, o cargo era vitalício, e quem o ostentava vivia em Karyes, a Capital da comunidade monástica. Se ocupava exclusivamente dos problemas externos gerais da comunidade, porque os mosteiros gozavam de auto-governo interno. 

As moradas na Montanha estão situadas em um ambiente às vezes impressionante e tranqüilo. 

O aumento dos ataques piratas que agravaram ainda mais o enfraquecimento do Império Bizantino, bem como a conquista turca, influenciaram na arquitetura das construções. As celas eram construídas na parte superior dos muros das fortalezas com três até seis andares. No meio do pátio havia um "katholikón", a igreja central, ladeada por capelas. 

A grande ocupação estrangeira provocou muitas oscilações no poder e na força destes estabelecimentos. Hoje, o território desta região autônoma esta dividido entre vinte mosteiros auto-suficientes. Um representante de cada mosteiro, eleito anualmente, é enviado a Karyes, onde a Sagrada Comunidade, uma espécie de parlamento, se reúne. Os mosteiros estão divididos em cinco grupos de quatro, cada um encabeçado pelos mosteiros mais importantes: Lavra, Vatopedi, Iviron, Hilandari e Dionisios. Cada grupo se alterna para o exercício das funções administrativas por período de um ano. Deste modo, dos vinte representantes, quatro compõem o órgão executivo e o comitê de superintendentes. Cada um deles conserva um quarto do "selo da comunidade monástica".

Onze dos mosteiros, principalmente na parte ocidental, são cenobíticos e estão governados por um Abade eleito e tem um conselho de monges maiores que o aconselha. Nove, em sua maioria na parte oriental, são idiorritimicos, governados por uma comissão de três superiores (proistamenoi) eleitos por um ano. O mosteiro de Hilandari é sérvio, o de Zografos é búlgaro; o de Pantaleimon é russo. Há também um eremitério romeno. O monastério de Iviron, que agora é grego, foi anteriormente Georgiano (ibério). Até o século XIII, existiu também o monastério latino dos Amalfitanos. 

Assim, a Montanha Sagrada se converteu em símbolo da catolicidade e unidade da Ortodoxia; e continua sendo o principal centro monástico do Patriarcado Ecumênico, o único em seu gênero em todo o mundo cristão. Infelizmente o número de monges diminuiu consideravelmente, o que fez diminuir o vigor da vida monástica no lugar. 

Durante os anos do Déspota de Elpiro, Meteora se converteu em um célebre Centro Monástico. Construíram impressionantes monastérios sobre abruptos precipícios que, vistos de longe, parecem ninhos de águias, onde foram cavadas inúmeros eremitérios nas rochas. Até pouco tempo, somente se poderia subir aos monastérios através de cordas ou redes. Só funcionam hoje em dia quatro dos vinte e quatro mosteiros da região, com um pequeno número de monges. Muitos mosteiros permanecem e continuam funcionando longe ou perto da Grécia, mas o número de monges não cessa de cair. 

Do Oriente a vida monástica passou para o Ocidente, já no século IV. Floresceu na Idade Média quando se organizaram as principais ordens monásticas. Sua contribuição ao cristianismo e civilização dos povos da Europa do Norte foi muito importante. O monaquismo juntamente com o cristianismo, foi transmitido também aos povos do norte da Grécia, aos eslavos, romenos entre outros. Célebres foram os líderes russos Antonio e Sérgio. Os primeiros ascetas da Rússia, os starsti, eram bem conhecidos e inúmeros grupos de pessoas solicitavam seus conselhos.

Os ideais da vida monástica

Quando os primeiros ascetas se retiraram do mundo para o deserto, abandonavam os bens mundanos: matrimônio, riqueza e atividades independentes. O celibato era vivido de maneira parcial ou de forma absoluta. Quanto à pobreza, antes vivida de maneira intensa, houve modificação se comparada à vida idiorritmica, sem perder, no entanto sua essência, uma vez que a propriedade dos monges não lhes dava condições de viver uma vida cômoda. Quanto à obediência, seja prestada a um Abade ou a um Pai espiritual do deserto, constituía uma inquietude primordial para os monges. O espírito egoísta e independente representava o mundo secular, por isso deveria ser eliminado por completo. O jovem asceta devia renunciar a própria vontade por Deus na pessoa de seu pai espiritual, para tornar boa a sua vontade. Sobre isto há um conto que diz que um Abade, desejando por a prova o progresso de seu filho espiritual, perguntou-lhe se via os chifres (que não existem) de um asno que naquele momento por ali passava. Logo o monge respondeu, sem titubeios: "Sim, os vejo, Abade."

A observância destas três virtudes assumia os noviços por meio de um juramento especial, durante a tonsura. A formulação deste voto coincidiu com a fundação do sistema cenobítico, no entanto, a base doutrinal e escrituraria foi elaborada pouco depois. Sem ele, o monaquismo corria o perigo de desviar-se na direção dos itinerantes "mesalinianos" . Deste modo o monaquismo se submetia à Igreja . Esta submissão foi confirmada por Justiniano e incorporada às leis eclesiásticas. 

Mas, não são apenas estes três vícios que constituem uma ameaça para a integridade moral dos ascetas. Outros vícios, como os já citados, constituem os oito pecados capitais: gula, fornicação, avareza, ira, tristeza, abatimento, vanglória e orgulho. As paixões correspondentes a estes pecados se devem atenuar para alcançar um estado de ausência de paixão. O auto-exame e a auto-censura, especialmente antes de deitar, proporcionam ao monge armas poderosas, quando se dispõem a enfrentar os demônios. Mas a sua arma principal é a oração (a oração contínua e intensa). A vida inteira dos monges está dominada por esta afirmação: "a vida inteira é um momento para orar"  (São Basílio, Discurso Ascético, PG 33, 877).

A jornada dos monges está dividida em três períodos de oito horas: um para rezar, outro para descansar e a último para trabalhar. O trabalho intenso tem três objetivos: assegurar o próprio sustento e o da Comunidade, ajudar seus companheiros, e evitar os maus pensamentos que acercam a consciência humana, especialmente quando se está ocioso. 

O artesanato, a pintura e outros tantos itens que produzem com seu trabalho os monges, tem sido sempre de boa qualidade, e por isso mesmo, sempre muito procurados, em particular as pinturas e as esculturas. Do mesmo modo as obras de literatura clássica cristã que se conservaram graças às copias realizadas nos mosteiros.

As atividades filantrópicas dos monges estavam relacionadas com seus trabalhos. Como vimos, esta vocação para as atividades beneficentes foi promovida e sistematizada por São Basílio, o Grande. Na época posterior a São Basílio, era inconcebível um monastério que não dispusesse um espaço para hóspedes, para um hospital e para uma escola. Podemos mencionar como exemplo o Monastério Pantokrátor, em Constantinopla, fundado no século XII, que dispunha de um hospital, com médicos para homens e mulheres, cuja organização lembra muito os hospitais modernos. Estava dividido em quatro seções: médica, cirúrgica, ginecológica, enfermaria dos olhos e dos ouvidos. 

Hoje ainda podemos apreciar reminiscências destas atividades filantrópicas em alguns mosteiros. Os beduínos que vivem próximo do Mosteiro do Sinai, não fazem seu próprio pão, pois o mosteiro de Santa Catarina lhos proporcionam gratuitamente; também todas as pessoas que visitam um mosteiro ortodoxo recebem hospitalidade gratuita. Os monges que se dedicavam a trabalhar, como já vimos anteriormente, canalizam os trabalhos para libertar-se das paixões com os serviços aos necessitados, e recebiam o nome de "monges ativos" (praktikoi). Além da atividade, há um estagio superior na escalada da perfeição monástica: a contemplação. Era vista como um esforço pela comunicação direta com Deus. Esta diferenciação das atividades (práticas e contemplativas) dos monges encontramos num poema de S. Gregório, o Teólogo:

"Preferirás a atividade ou a contemplação? 
A contemplação é a ocupação dos perfeitos, 
a ação pertence a muitos. 
Ambas são boas e queridas. 
Eleja aquela que se ajuste a ti"

O silêncio era uma condição indispensável para o asceta em sua busca pela perfeição. Por silêncio se entende paz interior e a relativa quietude exterior, através da qual se eliminam as paixões. Este estado foi chamado no último período brilhante da teologia mística bizantina de "hesicasmo". O silêncio estava unido inseparavelmente à ascese cristã. Os esforços dos primeiros monges nesta direção adotaram a forma de um silêncio balbuciante e permanente quando as circunstancias o requeriam. Diz-se que o Abade Poimen afirmou: 

"Quem fala por amor a Deus age corretamente
e quem permanece em silêncio pelo mesmo amor a Deus
age, de igual modo, corretamente." (ditos dos Padres,721)

O Silêncio não era predominante como regra de vida monástica; recebeu mais tarde ênfase maior devido a sua conexão com a oração interior. Considerava-se a oração como resultado da disposição do coração; não necessitava ser expressa oralmente, pois poderia, ao se expressar, produzir estímulos externos que interromperiam a concentração para a oração perfeita. Surgiu por isso a oração interior e mental, que se cristalizou na breve oração do Nome de Jesus, repetida sem cessar. 

"Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo,
tem piedade de mim, pecador!"

Rodeados pelo Absoluto, pelo silêncio espiritual, os olhos espirituais dos monges "contemplativos" se abrem. Fazem-se merecedores de visões e desfrutam de experiências espirituais inefáveis. Vivem em um estado de iluminação contínua da visão da luz e de comunhão com as coisas da Luz. A palavra "luz" e outros termos relacionados se encontram em quase todas as obras de Simeão, o Teólogo e de Gregório Palamás. Esta Luz é parte de Deus. Mediante uma paradoxa fusão do histórico e do meta-histórico, a experiência da deificação (theosis) se faz possível aqui e agora. A luz que viram os discípulos de Cristo no Monte Thabor, a luz que os hesicastas vêem hoje e a natureza do mundo futuro, constituem três fases do mesmo acontecimento espiritual, fundidos numa realidade supra-temporal.

A unilateral denominação de "contemplativos" ajudou no esquecimento da dimensão da missão social da vida monástica no Oriente, em contraste com o desenvolvimento dos acontecimentos no Ocidente, apesar dos repetidos esforços realizados, para a reorganização da vida monástica por São Basílio, o Grande. 

Sem deixar de lado a "contemplação", a que tanto devem a devoção e a literatura religiosa, é necessário insistir uma vez mais para que se fundem mosteiros que promovam os ideais cristãos dentro da sociedade organizada da humanidade.


Tradução do grego: Joaquín Cortès Belenguer

 

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