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A Sabedoria do Deserto

Thomas Merton

o século IV d.C., os desertos do Egito, Palestina, Arábia e Pérsia foram habitados por uma raça de homens que deixou como rastro uma estranha reputação. Foram os primeiros eremitas cristãos, indivíduos que abandonaram as cidades do mundo pagão para viver sozinhos. Por que fizeram isso? As razões são muitas e variadas, mas podem ser sintetizadas em apenas uma: a busca pela "salvação". E o que era salvação? Com certeza, nada que pudesse ser encontrado na mera conformidade exterior aos costumes e regras de um grupo social. Naquele tempo, os homens haviam adquirido uma consciência aguda da qualidade estritamente individual da "salvação". A sociedade - que significava a sociedade pagã, limitada pelos horizontes e perspectivas da vida "neste mundo" - era considerada por eles um naufrágio do qual cada indivíduo por si só deveria nadar para salvar a própria vida. Não precisamos nos deter aqui e discutir a justiça dessa visão, o que importa é considerá-la como um fato. Esses homens acreditavam que deixar alguém à deriva, sujeitando-se passivamente aos dogmas e valores do que conheciam como sociedade, era um desastre puro e simples. O fato de que o imperador era agora cristão e que o "mundo" começava a enxergar a cruz como símbolo de poder temporal apenas reforçava a resolução deles.

Essa resolução pode nos parecer muito mais estranha do que é, uma fuga paradoxal do mundo no momento em que este havia atingido o ápice em termos de dimensão (quase escrevi frenesi) e se tornado oficialmente cristão. Esses homens devem ter pensado, como alguns raros pensadores modernos (Berdiaeff é um deles), que não faz sentido a existência de algo como um "estado cristão". Eles parecem ter duvidado de que cristianismo e política pudessem se misturar a ponto de constituírem uma sociedade cristã plena. Em outras palavras, para eles, a única sociedade cristã era espiritual e extramundana: o Corpo Místico de Cristo. Trata-se com certeza de visões extremas e é quase um escândalo lembrar delas em um tempo como o nosso, em que a cristandade é acusada por todos os lados de pregar o negativismo e o retraimento - de não ter meios efetivos para lidar com os problemas da sua época. Mas não sejamos muito superficiais. Os Padres do Deserto lidaram com os "problemas de sua época", na medida em que pertenciam à vanguarda de seu tempo, e abriram o caminho para o desenvolvimento de um novo homem e uma nova sociedade. Representam o que os filósofos sociais modernos (Jaspers, Mumford) chamam de o surgimento do "homem axial", precursor do homem personalista moderno. Os séculos XVIII e XIX, com seu individualismo pragmático, degradaram e corromperam a herança psicológica do homem axial devida aos Padres do Deserto e a outros religiosos contemplativos e prepararam o caminho para a grande regressão à mentalidade de rebanho que prevalece hoje em dia.

A fuga desses homens para o deserto não teve um caráter puramente negativo ou individualista. Eles não se rebelaram contra a sociedade. É verdade que eram em certa medida "anarquistas", e não seria errado considerá-los sob essa perspectiva. Tratava-se de homens que não acreditavam em ser controlados e comandados passivamente por um estado decadente, e que acreditavam na existência de uma vida não atrelada à aceitação submissa dos valores aceitos e convencionais. Contudo, não pretendiam se colocar acima da sociedade. Não a rejeitavam com orgulho e desdém, como se fossem superiores aos outros homens. Pelo contrário, uma das razões pelas quais fugiram do "mundo" foi que os homens estavam divididos entre aqueles que atingiam o sucesso e impunham seus desejos aos outros e aqueles que tinham de ceder e aceitar a imposição. Os Padres do Deserto recusavam-se a ser comandados, mas não tinham nenhum desejo de comandar. Tampouco fugiram da sociedade humana - o fato de fornecerem "conselhos" uns aos outros evidenciava uma característica eminentemente social. Buscavam uma sociedade em que todos os homens fossem realmente iguais e a única autoridade abaixo de Deus fosse a autoridade carismática da sabedoria, da experiência e do amor. Claro que aceitavam a autoridade benevolente e hierárquica dos bispos, que, todavia, estavam muito distantes e opinavam pouco sobre o que acontecia no deserto, até a grande controvérsia origenista no final do século IV.

O que os Padres queriam acima de tudo era encontrar a si mesmos em Cristo. E para isso, tinham de rejeitar completamente o "falso eu", formal, fabricado sob a coerção social no "mundo". Buscavam um caminho que levasse a Deus e que não estivesse traçado, que pudesse ser escolhido livremente, que não fosse predeterminado por outros de antemão. Buscavam um Deus que pudessem encontrar por si mesmos, e não um Deus "recebido" em um formato fixo e estereotipado. Não que rejeitassem as fórmulas dogmáticas da fé cristã: eles as aceitavam e as adotavam em sua feição mais simples e elementar. Porém, demoraram (pelo menos no início, no tempo da sabedoria primitiva) a se envolver em controvérsias teológicas. A fuga aos horizontes áridos do deserto significava também uma recusa ao contentamento com a verborragia técnica, de argumentos e conceitos.

Estamos falando exclusivamente de eremitas. Também havia cenobitas no deserto, centenas, milhares deles, vivendo o "cotidiano" em mosteiros enormes, como o fundado por São Pacômio em Tabena. Essas comunidades tinham uma ordem social, uma disciplina quase militar. Contudo, o espírito ainda era em grande parte de personalismo e liberdade, porque mesmo os cenobitas sabiam que suas regras eram apenas uma estrutura externa, como uma armação de andaimes que os ajudaria a construir as próprias vidas com Deus. Os eremitas, por sua vez, eram sob todos os aspectos mais livres. Não tinham nada a que se "conformar" exceto à vontade secreta, oculta e inescrutável de Deus, que devia diferir notavelmente entre uma cela e outra! É bastante significativo que o primeiro desses Verba (número 3) é aquele em que a autoridade de Santo Antão é citada de acordo com o princípio básico da vida no deserto, qual seja, que Deus é a autoridade e que além de Sua vontade manifesta há poucos princípios, ou nenhum: "Portanto, ao perceber em sua alma qualquer desejo em acordo com Deus, realize-o e assim manterá seu coração a salvo."

Claro que tal caminho só poderia ser percorrido por alguém muito atento e sensível aos sinais de um lugar ermo, sem trilhas. O eremita tinha de ser maduro em sua fé, humilde, desapegado de si mesmo de forma atroz em todos os sentidos. Os cataclismos espirituais que às vezes arrebatavam alguns dos visionários soberbos demonstram as ameaças da vida solitária - como ossos embranquecendo na areia. O Padre do Deserto não podia ser um iluminista. Não podia se arriscar ao apego ao ego, ou aos perigos do êxtase da vontade própria. Não podia reter a mais leve identificação com seu eu superficial, transitório e autoconstruído. Deveria se deixar levar pela realidade interna e oculta de um eu transcendente, misterioso, não totalmente conhecido e entregue a Cristo. O Padre do Deserto deveria morrer para os valores da existência transitória como o fez Cristo na cruz, e levantar-se dos mortos com Ele, sob a luz de uma sabedoria completamente nova. Portanto, uma vida de sacrifícios, que tinha início após uma ruptura explícita que separava o monge do mundo. Uma vida em permanente "compunção", que o ensinava a lamentar a loucura do apego a valores irreais. Uma vida de solidão e trabalho, pobreza e jejum, caridade e oração, que removesse o antigo ego superficial e permitisse o surgimento gradual do eu verdadeiro e secreto, no qual o crente e Cristo fossem "um único Espírito".

Por fim, o termo próximo de toda essa luta era "a pureza do coração" - a visão nítida e desobstruída do verdadeiro estado das coisas, a compreensão intuitiva da própria realidade interna como ancorada, ou entregue, a Deus por intermédio de Cristo. O fruto desse processo era quies: "descanso". Não o descanso do corpo, nem mesmo a estabilização do espírito exaltado em um ponto ou ápice de luz. Os Padres do Deserto não eram, em sua maioria, extáticos. Os que eram deixaram atrás de si algumas histórias enganosas e esquisitas que confundem a questão essencial. O "descanso" que esses homens buscavam era simplesmente a sanidade e o equilíbrio de um ser que não necessitava mais olhar para si mesmo pois era levado pela perfeição da liberdade que possuía. Aonde? A qualquer lugar que o Amor ou o Divino Espírito considerasse apropriado. O descanso era, portanto, uma espécie de lugar-nenhum e não-intencionalidade que perderam toda a preocupação com o "eu" falso e limitado. Em paz, na posse de um "nada" sublime, o espírito mantinha-se, em segredo, acima do "tudo" - sem se preocupar em saber o que possuía.

Agora, os Padres não estavam nem mesmo preocupados o bastante com a natureza do descanso para falarem dele nesses termos, exceto muito raramente, como Santo Antão, quando observou que "a oração do monge não é perfeita até que não perceba mais em si mesmo o fato de estar orando". E isso foi dito casualmente, de passagem. De resto, mantinham-se afastados de tudo que fosse altivo, esotérico, teórico ou de difícil compreensão, ou seja, recusavam-se a falar sobre essas coisas. Na verdade, não se dispunham muito a falar sobre nada, nem mesmo sobre as verdades da fé cristã, o que explica a característica lacônica dos ditos.

Portanto, em muitos aspectos, os Padres do Deserto tinham muito em comum com os iogues indianos e com os monges zen-budistas da China e do Japão. Se fosse necessário achá-los nos Estados Unidos do século XX, teríamos de procurar em lugares insólitos e remotos. Infelizmente, são seres raros. Com certeza não vicejam nas calçadas da esquina da rua 42 com a Broadway. Talvez fosse possível encontrar homens dessa espécie entre os índios Pueblo ou Navajo, mas esses casos seriam inteiramente diferentes. Haveria a simplicidade e a sabedoria primitivas, mas arraigadas em uma sociedade primitiva. No caso dos Padres do Deserto, a ruptura explícita com o contexto social aceito e convencional ocorria para fugir e mergulhar em um vazio aparentemente irracional.

Embora seja possível argumentar que homens como os Padres do Deserto possam ser encontrados em alguns de nossos mosteiros de religiosos contemplativos, eu não iria tão longe. No nosso caso, trata-se de homens que deixam a sociedade do "mundo" para entrar em um outro tipo de sociedade, a da família de religiosos. Trocam os conceitos, valores e ritos de uma sociedade pelos da outra. E considerando que hoje já temos séculos de monasticismo, é necessário analisar o fato sob outra ótica. As "normas" sociais da família monástica também tendem a ser convencionais, e viver sob essas regras não representa um salto no vazio - apenas uma alteração radical de padrões e costumes. As palavras e os exemplos dos Padres do Deserto têm participado tanto da tradição monástica que o tempo os tornou estereótipos para nós, e não somos mais capazes de discernir sua admirável originalidade. Nós os enterramos, por assim dizer, em nossas rotinas e dessa maneira nos isolamos com segurança de qualquer choque espiritual da falta de convencionalidade deles. Mesmo assim, minha esperança ao selecionar e editar suas "palavras" é ter conseguido apresentá-las sob uma nova luz e manifestar novamente seu frescor.

Os Padres do Deserto foram pioneiros, não tinham nada a dar seguimento a não ser o exemplo de alguns dos profetas, como São João Batista, Elias, Eliseu e os Apóstolos, que também serviram de modelos. De resto, adotavam uma vida "angélica" e seguiam os caminhos inexplorados dos espíritos invisíveis. Suas celas eram como a fornalha de Babilônia, na qual, em meio às chamas, encontravam-se com Cristo.

Eles não almejavam a aprovação de seus contemporâneos, tampouco buscavam provocar qualquer reprovação porque as opiniões dos outros passaram a não ter mais importância. Não tinham nenhuma doutrina de liberdade estabelecida, mas de fato tornaram-se livres pagando o preço da liberdade.

De qualquer maneira, depuravam para si uma sabedoria muito prática e despretensiosa, ao mesmo tempo atemporal e primitiva, e que nos permite reabrir as fontes que foram poluídas ou bloqueadas pela recusa mental e espiritual acumulada da nossa barbárie tecnológica. Nossa época necessita desesperadamente desse tipo de simplicidade, necessita recuperar algo da experiência refletida nessas linhas. O termo a ser enfatizado é experiência. As poucas frases curtas reunidas neste livro têm pouco ou nenhum valor como informação apenas. Seria inútil folhear estas páginas casualmente e observar que os Padres disseram isto ou aquilo. Qual a vantagem em saber simplesmente que essas coisas foram ditas algum dia? O importante é que foram vividas. Que emanam de uma experiência nos níveis mais profundos da vida. Que representam uma descoberta do homem, ao final de uma jornada interna e espiritual muito mais essencial e infinitamente mais importante que a jornada até a lua.

O que ganhamos por viajar até a lua se não formos capazes de cruzar o abismo que nos separa de nós mesmos? Esta é a mais importante das viagens de descoberta, e sua falta torna todo o resto não apenas inútil, mas também desastroso. Uma prova: os grandes viajantes e colonizadores da Renascença foram, em sua grande maioria, homens que talvez fossem capazes de fazer o que fizeram justamente porque estavam alienados de si mesmos. Ao subjugar mundos primitivos, eles apenas impuseram, com a força de canhões, sua própria confusão e alienação. Exceções magníficas, como frei Bartolomeu de las Casas, São Francisco Xavier ou padre Mateus Ricci, apenas comprovam a regra.

Os ditos dos Padres do Deserto são recolhidos de uma coleção clássica, os Verba Seniorum, da Patrologia latina de Migne (volume 73). Os Verba distinguem-se de outras obras escritas dos Padres do Deserto pela plena falta de artifícios literários, por sua simplicidade total e honesta. As Vidas dos Padres são muito mais grandiloqüentes, dramáticas, estilizadas. Abundam em eventos maravilhosos e milagres. São fortemente marcadas pelas personalidades literárias que as protagonizaram. Os Verba, por outro lado, são relatos elementares e despretensiosos disseminados boca a boca na tradição cóptica, antes de serem estabelecidos pelo registro escrito em siríaco, grego e latim.

Sempre claros e concretos, sempre remetendo à experiência do homem formado pela solidão, estes provérbios e contos almejavam ser respostas simples a questões simples. Aqueles que iam ao deserto em busca da "salvação" pediam aos anciãos uma "palavra" que os ajudasse a encontrá-la - um verbum salutis, "palavra de salvação". As respostas não pretendiam ser prescrições gerais e universais. Ao contrário, eram chaves originalmente concretas e exatas para portas específicas que deveriam ser cruzadas, em determinados momentos e por determinados indivíduos. Apenas posteriormente, após muita repetição e muita citação, as respostas começaram a ser consideradas moeda comum. Para entender melhor estes ditos, precisamos levar em conta sua característica prática e, poder-se-ia dizer, existencial. Mas na época em que São Bento em sua Regra prescreveu a leitura freqüente e em voz alta das "Palavras dos Padres" antes das Completas, os ditos já haviam se tornado uma doutrina monástica tradicional.

Os Padres eram homens humildes e calados, e não tinham muito a dizer. Respondiam às perguntas com poucas palavras, iam direto ao ponto. Ao invés de fornecerem um princípio abstrato, preferiam contar uma história concreta. Essa brevidade, plena de conteúdo, alivia. Há mais luz e satisfação nestes ditos lacônicos do que em muitos tratados ascéticos extensos, fartos de detalhes de como ascender de um grau a outro da vida espiritual. As palavras dos Padres nunca são teóricas na acepção moderna do termo. Nunca são abstratas. Tratam de coisas concretas e dos trabalhos rotineiros da vida de um monge do século IV, mas o que transmitem serve da mesma maneira a um pensador do século XX. As realidades essenciais da vida interior estão presentes nelas: fé, humildade, caridade, submissão, discrição, abnegação. No entanto, expressar o senso comum não é a menor qualidade das "palavras de salvação".

Isto é importante. Os Padres do Deserto adquiriram posteriormente a fama de fanáticos em decorrência das histórias sobre seus feitos ascéticos, contadas por admiradores indiscretos. De fato, eles eram ascéticos, mas, quando lemos suas próprias palavras e vemos o que pensavam sobre a vida, descobrimos que em hipótese alguma eram fanáticos. Eram pessoas humildes, caladas, sensíveis, donas de um profundo conhecimento da natureza humana e suficiente compreensão das coisas de Deus para perceber que sabiam muito pouco a Seu respeito. Portanto, não se dispunham a proferir longos discursos sobre a essência divina, ou mesmo falar sobre o significado místico das Escrituras. Se esses homens falavam pouco sobre Deus, é porque sabiam que, quando alguém chegava a algum ponto próximo à Sua morada, o silêncio era muito mais significativo que um monte de palavras. O fato de o Egito, naquela época, fervilhar com controvérsias religiosas e intelectuais era uma razão a mais para que mantivessem suas bocas fechadas. Havia os neoplatônicos, os gnósticos, os estóicos e os pitagóricos. Havia diversos grupos vocais de cristãos ortodoxos e heréticos. Havia os arianos, a quem os monges do deserto resistiam veementemente. Havia os origenistas, e alguns dos monges eram seguidores fiéis e devotados a Orígenes. Em meio a todo esse barulho, o deserto não tinha outra contribuição a dar a não ser um silêncio discreto e desapegado.

Os grandes centros monásticos do século IV eram o Egito, a Arábia e a Palestina. A maioria destas histórias referem-se aos eremitas da Nítria e de Cétia, ao norte do Egito, próximas à costa do Mediterrâneo e a oeste do Nilo. Também havia muitas colônias de monges no delta do Nilo. Tebaida, próxima à antiga Tebas, mais em direção ao interior do Nilo, era um outro centro de atividade monástica, especialmente dos cenobitas. A Palestina desde cedo atraiu monges de todas as partes do mundo cristão, sendo São Jerônimo o mais famoso deles, que viveu e traduziu as Escrituras em uma caverna de Belém. Em seguida, havia uma importante colônia monástica ao redor do monte Sinai, na Arábia: os fundadores do monastério de Santa Catarina divulgaram recentemente a "descoberta" de obras de arte bizantinas preservadas lá.

Que tipo de vida levavam os Padres? Uma explicação pode nos ajudar a compreender melhor seus ditos. Os Padres do Deserto são normalmente chamados de "abades" (abbas) ou "anciãos" (senex). Um abade não era, como hoje, um superior eleito canonicamente pela comunidade, mas qualquer monge ou eremita que tivesse passado anos no deserto e provado ser um servo de Deus. Com eles, ou próximo a eles, viviam "irmãos" ou "noviços" - aqueles que ainda estavam no processo de aprendizado da vida. Os noviços ainda precisavam da supervisão contínua de um ancião, e viviam junto a um deles para serem instruídos por sua palavra e exemplo. Os irmãos viviam por conta própria, mas às vezes recorriam ao conselho de um ancião das redondezas.

A maioria dos personagens representados nos ditos e histórias são homens "a caminho" da pureza do coração, não homens que já a atingiram plenamente. Os Padres do Deserto, inspirados por Clemente e Orígenes, e pela tradição neoplatônica, às vezes se mostravam confiantes de que poderiam elevar-se acima de todas as paixões e tornar-se impermeáveis à raiva, à lascívia, ao orgulho e a todo o resto. Porém, podemos encontrar muito pouco nestes ditos que motivasse aqueles que acreditavam na perfeição cristã como apátheia (impassibilidade). O louvor aos monges "além de toda paixão" parece na verdade ser proveniente de turistas que passaram brevemente pelo deserto e voltaram às suas casas para escrever livros sobre o que haviam visto, e não daqueles que passaram toda a vida em uma região inóspita. Estes últimos estavam muito mais inclinados a aceitar as realidades comuns da vida e a se satisfazer com a porção ordinária do homem que tinha de lutar toda a vida para se superar. A sabedoria dos Verba pode ser vista na história do monge João, que se gabava de estar "além de qualquer tentação", e foi aconselhado por um ancião perspicaz a orar a Deus pedindo algumas poucas e boas batalhas concretas para que sua vida continuasse a valer alguma coisa.

Em certos momentos, todos os solitários e noviços reuniam-se para a synaxis litúrgica (missa e orações em comum) e, depois disso, podiam comer juntos e realizar uma espécie de assembléia para a discussão de problemas da comunidade. Em seguida, retornavam à solidão e passavam o tempo trabalhando e orando.

Sustentavam-se com o trabalho das próprias mãos, normalmente tecendo cestos e esteiras com folhas de palmeiras e juncos. Vendiam esses artigos nas cidades vizinhas. Às vezes há dúvidas nos Verba quanto a questões relacionadas ao trabalho e o comércio envolvido. Caridade e hospitalidade eram questões de prioridade máxima e precediam as rotinas ascéticas pessoais e o jejum. Os inúmeros ditos que apresentam evidências dessa benevolência afetuosa deveriam ser suficientes para responder a acusações de que os Padres odiavam a própria raça. Na verdade, havia mais amor, compreensão e cordialidade verdadeiros no deserto do que nas cidades, onde, como hoje, era cada um por si.

Este fato é ainda mais importante porque a essência propriamente dita do cristianismo é a caridade, a unidade em Cristo. Os místicos cristãos de todas as épocas buscaram e encontraram não apenas a unificação do próprio ser ou a união com Deus, mas a união entre si mesmos no Espírito de Deus. Buscar uma união com Deus que implicasse uma separação completa, em espírito e corpo, do resto da humanidade seria, para um santo cristão, não apenas absurdo, mas também o oposto da santidade. O isolamento no eu, a inabilidade de sair de si para ir ao outro, significaria a incapacidade para qualquer forma de auto-transcendência. Portanto, ser prisioneiro de si mesmo é, na verdade, estar no inferno: uma verdade que Sartre, embora confessando-se ateu, expressou de maneira muito interessante na peça Entre quatro paredes (Huis Clos).

Em todos os Verba Seniorum encontramos uma insistência reiterada na primazia do amor sobre qualquer outro aspecto da vida espiritual: sobre o conhecimento, a gnose, o ascetismo, a contemplação, a solidão, a oração. Na verdade, o amor é a vida espiritual, sem o qual todos os outros exercícios do espírito, embora elevados, ficam esvaziados de conteúdo e tornam-se meras ilusões. E quanto maior a elevação, mais perigosa a ilusão. O amor, com certeza, significa muito mais do que um simples sentimento, muito mais que favores ínfimos ou doadores de esmolas rotineiros. Amor significa uma identificação interior e espiritual com o irmão para que ele não se torne um "objeto" ao "qual" se "faz um bem". O fato é que o bem feito ao outro na forma de objeto tem pouco ou nenhum valor espiritual. O amor faz com que o indivíduo considere o vizinho como seu outro eu e o ame com humildade, discrição, reserva e reverência imensas e plenas, sem as quais ninguém pode se aventurar a ingressar no santuário da subjetividade do outro. Desse amor, toda brutalidade autoritária, toda a exploração, dominação e superioridade arrogante devem, necessariamente, estar ausentes. Os santos do deserto eram inimigos de todo e qualquer expediente, sutil ou flagrante, que o "homem espiritual" utilizasse para intimidar aqueles que considerasse inferiores, gratificando assim o próprio ego. Eles renunciaram a tudo que evocasse punição e vingança, por mais recôndito que fosse.

A caridade dos Padres do Deserto não se apresenta a nós como efusões pouco convincentes. A plena dificuldade e magnitude da tarefa de amar o outro é reconhecida em toda parte e nunca minimizada. É difícil amar de verdade o outro se o amor for compreendido em seu sentido pleno. O amor demanda uma transformação interna completa, pois, sem isso, não podemos nem mesmo nos identificar com nosso irmão. Temos de nos transformar, de certa forma, na pessoa que amamos. E isso envolve uma espécie de morte do nosso próprio ser, do nosso próprio eu. Não importa o quão duramente tentemos, resistamos a essa morte: lutamos contra raivas, recriminações, exigências, ultimatos. Tentamos encontrar uma desculpa conveniente qualquer para interromper o processo e desistir da árdua tarefa. Porém, nos Verba Seniorum, lemos sobre o abade Amonas, que passou catorze anos orando para superar a raiva, ou melhor, para se libertar dela. Lemos também sobre o abade Serapião, que vendeu seu último livro, uma cópia do Evangelho, e deu o dinheiro recebido aos pobres, ou seja, "vendeu o próprio livro que lhe dizia para vender tudo que tinha e dar o dinheiro aos pobres". Outro abade censurou severamente alguns monges que foram responsáveis pela prisão de um grupo de ladrões e, depois disso, os eremitas, envergonhados, entraram na cadeia à noite e libertaram os prisioneiros. Em outras ocasiões vemos abades negando-se a repreender um ou outro delinqüente, como o abade Moisés, o grande e gentil negro, que entrou na assembléia carregando uma cesta cheia de areia, deixando-a vazar pelas fendas. E disse: "Meus pecados estão vazando sem que eu os veja, e hoje estou aqui para julgar os pecados de uma outra pessoa!"

Se esses protestos eram feitos, é claro que havia algo contra o que se protestar. No final do século V, Cétia e Nítria tornaram-se cidades monásticas rudimentares, com leis e punições. Três chicotes pendiam em uma palmeira no lado de fora da igreja de Cétia: um para punir monges delinqüentes, outro para ladrões e um terceiro para vadios. Porém, havia vários monges, como o abade Moisés, que não apoiavam esse tipo de regra. Tais monges eram os santos, representavam o ideal do deserto "anárquico" primitivo. Talvez o exemplo mais memorável de todos seja o dos dois irmãos que viveram juntos por anos sem brigar, e que decidiram "discutir como todos os outros homens", mas simplesmente não conseguiram.

A oração era a essência da vida no deserto e consistia em salmodia (oração em voz alta - recitação dos salmos ou partes das Escrituras que todos deveriam saber de cor) e contemplação. Aquilo que hoje chamaríamos de oração contemplativa era conhecido como quies ou "descanso". Este termo iluminador persistiu na tradição monástica grega como hesykhia, ou "doce repouso". Quies é um estado de absorção silenciosa auxiliada pela repetição suave de uma única frase das Escrituras - a mais popular delas sendo a oração de publicano: "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador." A forma abreviada desta invocação era "Senhor, tende piedade" (Kyrie eleison) - repetida em silêncio centenas de vezes por dia até se tornar tão espontânea e instintiva como a respiração.

Quando Arsênio é instruído a fugir do cenóbio, ficar em silêncio e descansar (fuge, tace, quiesce), trata-se de um chamado à "oração contemplativa". Quies é um termo mais simples e menos pretensioso, e muito menos desorientador. Adequa-se à simplicidade dos Padres do Deserto muito mais que "contemplação", e predispõe a menos ocasiões para narcisismo e megalomania. Praticamente não existia perigo de quietismo no deserto. Os monges mantinham-se ocupados e, se o quies era a satisfação do que buscavam, o corporalis quies ("descanso do corpo") era um dos grandes inimigos. Traduzi corporalis quies como "vida fácil", para não passar a impressão de que muita ação fosse tolerada no deserto. Não era. O monge deveria permanecer tranqüilo e ficar o máximo possível em um único lugar. Alguns Padres chegavam a desaprovar aqueles que procuravam emprego fora de suas celas, e trabalhavam para os fazendeiros do vale do Nilo durante as temporadas de colheita.

Por fim, nestas páginas, encontramo-nos com diversas personalidades grandiosas e simples. Embora os Verba sejam às vezes atribuídos a apenas um senex (ancião) não identificado, muitas vezes são imputados ao nome do santo que os proferiu. Encontramo-nos com o abade Antão, ninguém menos que Santo Antão, o Grande. Este é o Pai de todos os eremitas, cuja biografia, escrita por São Atanásio, estimulou em Roma inteira vocações monásticas. Antão era realmente o Pai de todos os Padres do Deserto. Porém, o contato com seus pensamentos originais nos faz lembrar que ele não é o Antão de Flaubert, tampouco encontramos aqui o Pafnúcio de Anatole France. Antão, é verdade, atingiu a apátheia após longos e espetaculares embates com demônios. No entanto, ao final, ele conclui que nem mesmo o diabo era o mal pleno, visto que Deus não poderia ter criado o mal, e que todas as Suas obras eram boas. Pode ser uma surpresa saber que Santo Antão, ao contrário de todos, achava que o demônio tinha algo de bom em si. Isso não era mero sentimentalismo. Mostrava apenas que não havia em Santo Antão muito espaço para paranóia. Podemos refletir de maneira produtiva que o homem massificado moderno é aquele que se voltou com toda sua paixão para projeções fanáticas de todo o mal de si sobre "o inimigo" (quem quer que seja). Os solitários do deserto eram muito mais sábios.

Assim, nos Verba, encontramos homens santos como Santo Arsênio, o austero e calado forasteiro que chegou ao deserto da longínqua corte dos imperadores de Constantinopla, e que não deixava ninguém olhar seu rosto. Encontramos o gentil Poimen, o impetuoso João, o anão, que queria se tornar "um anjo". Não menos cativante é o abade Pastor, talvez o que apareça mais vezes. Seus ditos caracterizam-se pela humildade prática, pelo conhecimento da fragilidade humana e pelo sólido bom senso. Pastor, como sabemos, era muito humano e conta-se que quando seu irmão de sangue começou a agir com frieza em relação a ele, e a dar preferência a conversas com outro eremita, sentiu tanto ciúme que teve de ir consultar um dos anciãos para reequilibrar seus pontos de vista.

Os monges insistiam em permanecer humanos e "comuns". Isto pode parecer um paradoxo mas é muito importante. Se pararmos para pensar um momento, veremos que fugir ao deserto para ser extraordinário é somente carregar o mundo como um padrão implícito de comparação. O resultado não seria outro que a autocontemplação e a autocomparação com o padrão negativo do mundo recém-abandonado. Alguns dos monges do deserto fizeram isso e o que conseguiram foi a perda do equilíbrio mental. Os homens simples que viveram suas vidas até uma idade avançada entre pedras e areia só o fizeram porque haviam ido ao deserto para serem eles mesmos, para viverem seu eu ordinário, e para esquecerem um mundo que os mantinha afastados de si mesmos. Não pode haver outra razão válida para buscar a solidão ou para se afastar do mundo. Portanto, deixar o mundo é, na verdade, ajudar a salvá-lo, salvando-se a si mesmo. Este é o ponto final e fundamental. Os eremitas cópticos que deixaram o mundo, embora estivessem escapando de um naufrágio, não pretendiam apenas salvar suas vidas. Eles sabiam que eram incapazes de fazer algum bem aos outros enquanto se debatessem no naufrágio. Porém, uma vez que conseguissem colocar os pés em terra firme, as coisas seriam diferentes. Nesse momento eles não apenas teriam o poder, mas a obrigação de trazer todo o mundo a salvo atrás deles.

Esta é a lição paradoxal deles para os nossos tempos. Talvez fosse um pouco de exagero dizer que o mundo atual precise de um outro movimento como aquele que atraiu tantos homens para os desertos do Egito e da Palestina. O nosso tempo é sem dúvida de solitários e eremitas. Porém, apenas reproduzir a simplicidade, a austeridade e as orações daquelas almas primitivas não é a resposta mais completa, nem a mais apropriada. Precisamos transcendê-los, e transcender todos aqueles que, desde suas respectivas épocas, foram além dos limites que estabeleceram. Devemos libertar a nós mesmos, da nossa própria maneira, do envolvimento com um mundo que caminha para o desastre, com a diferença de que nosso mundo é diferente do deles. Nosso envolvimento é mais completo. Nosso perigo é muito mais urgente. Nosso tempo, talvez, é mais curto do que pensamos.

Não podemos fazer exatamente o que eles fizeram. Porém, precisamos ser igualmente meticulosos e inexoráveis em nossa determinação de quebrar os elos espirituais e repudiar a dominação de compulsões externas para encontrarmos nosso verdadeiro eu, para descobrirmos e desenvolvermos nossa liberdade espiritual inalienável e usá-la para construir, na terra, o Reino de Deus. Não é este o momento de especular o que está envolvido nessa grandiosa e misteriosa vocação. Isto ainda é desconhecido. Para mim, basta dizer que é preciso aprender com esses homens do século IV como ignorar o preconceito, desafiar a compulsão e penetrar sem medo no desconhecido.


A Sabedoria do Deserto. Editora Martins Fontes

 

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