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A origem do Monaquismo

timologicamente, monge é um homem que vive solitário (do grego monos, que significa único), mas esta palavra teve sempre uma acepção mais lata. Logo nos primórdios da cristandade, definiu aquele que se separou dos outros, aquele que se afastou da vida civil e social, para se dedicar completamente à oração e ao serviço de Deus, quer tenha vivido verdadeiramente isolado, como eremita e como anacoreta, ou em grupo, com outros, numa pequena comunidade, como cenobita.

Quando apareceram os primeiros monges? É difícil sabê-lo, exatamente. Hoje em dia, costuma-se considerar monge aquele que segue uma Regra antiga, mas seria erro defini-lo unicamente pela prática de costumes e por um certo modo de vida quotidiano. Além disso, as Regras só apareceram tardiamente.

Alguns, como por exemplo João Cassiano-que, no século V, foi Superior de uma abadia em Marselha e visitou os mosteiros do Egito e de Jerusalém - consideram que o monaquismo já vem o tempo dos apóstolos. Segundo outra hipótese, teria nascido na época de Jesus: Essênios, Terapeutas, que teriam influenciado os primeiros cristãos ou que se teriam convertido no decorrer do século I. Esta hipótese não deixa de ter o seu fundamento, pois que essas comunidades se espalharam até à Tebaida e que foi nessa Região – fronteira entre a Ásia e a África - que a tradição diz que nasceu o monaquismo. No entanto, o monaquismo, tal como a cristandade o concebe só viria a ser historicamente atestado duzentos anos mais tarde.

Por isso, se nos é permitido pensar - nomeadamente graças à descoberta dos manuscritos de Qumrân - que a busca espiritual desses ascetas se parecia muito com o ideal dos primeiros eremitas cristãos - pois que também viviam em «comunidade», observavam o celibato, a pobreza, juntavam todos os seus bens em comum e passavam o tempo em oração e em contemplação -, ainda hoje não há nada que nos permita estabelecer, entre eles, uma filiação direta.

Os Padres do Deserto

A História quer que tenha sido no Egito, para além de Alexandria, que, nos princípios do século III, apareceram as primeiras formas de uma vida baseada nos ensinamentos de Cristo. Nessa época, já o Império Romano estava a entrar no seu declínio. E os cristãos, como já não eram martirizados, imiscuíam-se nos negócios públicos, gozavam dos mesmos direitos, tinham acesso às mesmas honrarias e às mesmas facilidades que os cidadãos das outras comunidades. O que até aquele momento os mantivera no fervor de Cristo - a revolta, a opressão e a fé - mostrava tendência para se moderar com o reconhecimento da Igreja. Por isso, foi muito naturalmente que alguns deles procuraram afastar-se das cidades, para se refugiarem no silêncio do deserto e voltarem a encontrar uma vida de pobreza e de perfeição, de acordo com os preceitos do Evangelho.

A esses homens que, vivendo como ascetas, se retiraram para os próprios lugares onde foi vivido o mistério de Cristo, deu-se o nome de «Padres do Deserto». A maior parte deles viviam isolados (por vezes com alguns discípulos) só voltando a encontrar-se com a comunidade no momento da liturgia. Realmente, conhecemos muito mal a vida deles, pois no seu desejo de percorrerem o caminho de Deus, eram de uma extrema humildade, viviam escondidos e não davam a conhecer as suas obras. Apesar disso, ainda chegaram até nós aquelas célebres «sentenças» ou «apotegmas» dos padres que, embora não nos permitam descrever exatamente a vida que levavam, nos trazem as suas palavras, alguns dos seus atos e, sobretudo, o espírito que os animava.

Os «apotegmas» são considerados como fazendo parte dos textos mais edificativos do mundo cristão: desembaraçados de dogmas e de dialética, apresentam - num estilo simples - homens inspirados pelo apelo divino, incessantemente submetidos à tentação e que se dedicam a viver o ideal de perfeição ensinado por Jesus. Esses «velhos», tal como também foram chamados, tinham por nomes: Teodoro de Sceté, Isaac le Thébain, Poemen, João Colobos, Arsénio, Macário o Egípcio, Gelase, Isidoro o Grande, Cassiano, Paulo de Tebas, para só citarmos os mais conhecidos. Entre eles também se encontrava Antônio de Common, que desempenhou um papel essencial e é considerado como chefe de fila, o «Pai» de todos os monges cristãos.

Um relato de Macário, o Egípcio

As «sentenças» dos padres insistem sempre na oração, no jejum, na submissão, no afastamento do mundo. O abade Arsênio - que desempenhara elevadas funções na corte de Constantinopla e se afastara, discretamente, para ir para o deserto do Cairo -, um dia, quando rezava, ouviu uma voz que lhe dizia: «Arsénio, foge, não diz nada, vive no recolhimento, são essas as raízes da impecabilidade». Muitíssimos outros apotegmas falam no mesmo sentido. Também fazem a apologia da temperança, da caridade, do esforço, da paciência, do discernimento espiritual e do sentido dos verdadeiros valores. Enfim, a luta contra os demônios, aqueles demônios do deserto que inspiraram a Idade Média, designadamente nas imagens que representam a tentação de Santo Antônio.

Mas Santo Antônio não foi o único a entrar em luta contra o demônio; e esse é um tema apreciado por todos os padres, como nos demonstra a narrativa de Macário, que damos a seguir. (Nascido por volta do ano 300, Macário começou por viver perto de uma aldeia onde, depois de adulto, o acusaram, injustamente, de adultério. No momento em que se preparavam para o castigar, ele fugiu para o deserto de Sceté. Tinha 30 anos. Ali se deixou ficar até ao fim da sua vida, em 390, depois de ter formado numerosos discípulos e de ter sido ordenado padre.)

Narrativa de Macário. Apotegma 456:

Quando o abade Macário vivia no grande deserto, vivia isolado no seu retiro, mas mais abaixo havia outro deserto onde viviam muitos irmãos. O velho vigiava o caminho e avistou Satanás que se aproximava sob a aparência de um homem, para passar por casa dele. Parecia estar coberto por uma túnica de linho, cheia de buracos, e em cada buraco estava metido um frasquinho. O grande velho disse--lhe: “Aonde vais?”. Ele respondeu-lhe: “Vou espevitar a memória dos irmãos”. O velho disse: “E para que são todos esses frasquinhos?”. E Satanás respondeu: “Levo poções aos irmãos”. O velho disse: «Isso tudo?” E o outro respondeu: “Sim, porque se alguma delas não agradar a um irmão, dou-lhe outra; e, se essa outra também não lhe agradar, apresento-lhe uma terceira; e de entre todas as que aqui trago, alguma haverá de lhe agradar”. Dito isto, foi-se embora. O velho continuou a vigiar os caminhos até que viu o outro voltar. Ao vê-lo passar, disse-lhe: “Que tenhas uma longa vida!”. O outro respondeu: “Como é que hei de ter uma longa vida?” O velho perguntou: “Por quê?” Ele respondeu: “Porque todos se mostraram desabridos para comigo e nenhum deles me recebeu”. O velho disse: “Então, não tens ali nenhum amigo?” E ele respondeu: “Sim, tenho ali um monge que é meu amigo e esse, pelo menos, obedece-me; mal me vê, põe-se a girar como um remoinho”. O velho perguntou-lhe: “Como se chama esse irmão?” Ele respondeu: “Theopemptos”. E, tendo acabado de dizer isto, foi-se embora. Então, o abade Macário levantou-se e foi ao deserto inferior. De longe, os irmãos viram-no aproximar-se, foram buscar folhas de palmeira e dirigiram-se ao encontro dele. Entretanto, cada um deles se ia preparando supondo que era para o seu retiro que o velho se dirigia. Mas este perguntou quem era, de entre os que se encontravam na montanha, aquele que se chamava Theopemptos; e, tendo-o encontrado, entrou na sua célula. Theopemptos acolheu-o com grande alegria. Logo que se viu a sós com ele, o velho disse-lhe: “Como tens passado, irmão?” Theopemptos respondeu: “Bem, graças às tuas orações”. O velho perguntou-lhe: “Os pensamentos não andam a lutar contra ti?” O outro respondeu: “Por enquanto, estou bem” , porque tinha vergonha de falar. O velho disse-lhe: “E eu, há tantos anos que pratico a ascese, que sou louvado por todos e agora, velho como estou, ando a ser perseguido pelo espírito da luxúria”. Theopemptos disse logo: “Olha, abade, eu também”. E o velho ainda disse que havia outros pensamentos que o perseguiam até que o outro também confessasse ter esses. Depois, disse-lhe: “Como é que jejuas?” Theopemptos respondeu: “Até à nona hora”. O velho disse-lhe: “Jejua até ao fim da tarde e exercita-te; recita, de cor, o Evangelho e as outras Escrituras; e se te vier um pensamento, nunca olhes para baixo, levanta sempre os olhos para cima que o Senhor virá socorrer-te imediatamente”. Tendo dado estas instruções ao irmão, o velho regressou ao seu deserto. E, como tivesse voltado a estar de vigia, tornou a ver aquele mesmo demônio e disse-lhe: “Aonde vais, desta vez?” O outro respondeu: “Reavivar a memória dos irmãos”. E foi-se embora. Quando voltou, o santo perguntou-lhe: “Como estão os irmãos?” Respondeu: “Mal”. O velho disse-lhe: “Por quê?”. E ele respondeu: “Todos eles se mostraram antipáticos para comigo e, o que é ainda pior, até o amigo que lá tinha e que me obedecia, não sei o que lhe fizeram, mas não só deixou de me obedecer como se tornou o mais antipático de todos. Por isso, prometi a mim mesmo não voltar a pôr os pés lá em baixo, pelo menos durante os próximos tempos”. Tendo falado assim, foi-se embora. E o santo foi para a sua cela.

Antônio, o «Pai» dos monges

Nascido por volta do ano 250, Antônio era de uma família de cristãos abastados que viviam ao sul de Mênfis, no Egito. Aos 18 anos - depois de os pais terem morrido - é atingido pela Graça, vende todos os seus bens, as suas terras, distribui tudo e abandona a sua cidade natal. Mas não vai imediatamente para o deserto. Pelo que conta o seu biógrafo - Santo Atanásio, patriarca da Alexandria - começa por se ir pôr sob a autoridade de um “velho”, para viver em comunidade e aprender a partilhar o seu tempo entre a oração, a leitura da Bíblia e o trabalho manual. Em seguida, retira-se num antigo túmulo escavado na rocha e acaba por se ir refugiar num castelo abandonado, onde permanece durante perto de vinte anos sem por isso se isolar completamente do mundo e da comunidade eclesial. Começa a receber discípulos, outros “padres”. Contudo, não cria nenhuma comunidade; cada um desses homens vive numa célula separada e reúne-se com os seus semelhantes para a oração e para a Eucaristia. No ano de 311, Antônio vai a Alexandria e, daí, segue para o Sul, acabando por estabelecer-se no monte Quelzoum, num pequenino oásis que nunca mais deixará, a não ser duas vezes: para combater contra os Arianos e para ir visitar os seus discípulos. Morreu em 356, com 105 anos, segundo conta a lenda.

Santo Antônio - que levou uma vida de solitário embora nunca se tenha afastado completamente do mundo, exerceu uma considerável influência no conjunto dos padres que viveram nessa época e nos sucessores destes. Uma influência direta através do exemplo, e indireta pelo espírito. Certamente que não foi o único ser excepcional daquele tempo, mas foi o mais célebre e simboliza a primeira corrente do monaquismo: o anacoretismo. Muitos foram os discípulos que a sua qualidade espiritual atraiu. Os apotegmas ali estão, para confirmar isso; vinham de muito longe, para o escutarem e pedirem conselho. Depois de o fazer, muitos deles se retiraram para o deserto e passaram a viver como eremitas solitários. Muitos outros se agruparam em redor de um velho (anacoreta), que se encarregou de os formar para a vida evangélica e de os reunir para o ofício do Domingo.

Essas duas formas do anacoretismo - o eremitismo absoluto (solidão total) e eremitismo temperado (praticado em conjunto, sob a direção de um “pai” espiritual) -, conheceu-as e experimentou-as Santo Antônio, com as suas armadilhas e os seus excessos, viveu-as com perfeição e sede de absoluto, nesse deserto do Nilo que virá a tornar-se o berço do monaquismo. Graças ao seu exemplo, o anacoretismo espalhou-se pelos desertos de Sceté, de Pispir, de Hemopolis, da Nítria, no Alto e no Baixo Egito e para além dessas regiões, na Palestina (Hilarion) até à Síria e à Mesopotâmia.

No entanto, foi um outro “Pai”, o abade Pacômio - contemporâneo de Santo Antônio, e que morreu em 346 - que inaugurou e estabeleceu as regras da vida em comum. Pacômio, o «Pai» dos cenobitas.

Do Egito ao Ocidente

Os discípulos começaram a ajuntar-se em redor dos santos velhos e, em certos lugares, chegaram a compartilhar uma vida mais coletiva. Em vez de viverem em células disseminadas pelo deserto, em volta de um ponto fulcral, reuniram-se no interior de uma muralha, tanto para melhor poderem lutar contra os demônios e reduzir os perigos da solidão como para pôr em comum e comercializar os frutos dos seus trabalhos manuais. Por conseguinte, tornou-se necessário organizar a vida da comunidade nesses embriões de mosteiros, instituir um regime comum de orações e de trabalho. Isso foi resolvido por Pacômio, que redigiu a primeira regra.

Se à primeira vista e devido ao seu pragmatismo, esta parece bastante grosseira, não se pode negar que contenha interessantes informações sobre a amplidão do movimento que se começava a manifestar. Pacômio também refere que muitos mosteiros tinham aceite a sua observância que já era seguida por cinco mil homens, segundo o que ele afirma. E até descreve a maneira como os tinha repartido pelos vários conventos da Tebaida. Também indica qual a natureza do trabalho dos monges, de que maneira deveria ser efetuado o serviço e quais eram as suas prerrogativas perante os estrangeiros. Seguiam-se prescrições sobre a alimentação, os jejuns, o sono, a oração, o silêncio e ordens muito precisas servindo para a edificação dos discípulos. Por fim, Pacômio instaurou a autoridade de um Superior.

Quanto ao espírito que dirigiu o seu empreendimento, as primeiras linhas da Regra elucidam-nos:

Em nome da Santa Trindade.

Regulamento que o anjo do Senhor recomenda ao Abade Pacômio.

Num país que se chama Tabennêse, no território da Tebaida, vivia um homem chamado Pacômio entre os que tinham uma vida pura; estava dotado com a ciência do futuro e favorecido com a vista dos anjos. Sentia-se cheio de amor pelos homens e os seus irmãos. Quando vivia numa caverna, o anjo do Senhor apareceu-lhe e disse-lhe: “No que se refere a ti, já fizeste o necessário; a partir de hoje, é inútil que permaneças numa gruta. Por conseguinte, sai, reúne os jovens e vive com eles; instrui-os segundo o regulamento que te vou dar”. E entregou-lhe uma tabuinha de bronze onde se encontravam escritas as seguintes palavras...

Segue-se a enumeração dos quinze primeiros preceitos:

E então o grande Pacômio respondeu ao anjo: “é pouca oração”.

O anjo disse-lhe: “Recomendei-te isso para que os jovens possam praticar este regulamento sem dificuldade, pois que os homens já feitos não precisam de regulamento; efetivamente, passaram a vida na contemplação do Senhor. Faço-te regulamentos para aqueles que estão privados de direção, a fim de que, como servidores, eles possam fazer o que lhes é ordenado e venham assistir aos ofícios de livre vontade e de rosto alegre...“

Depois de Pacômio, o monaquismo espalhou-se pelo Ocidente embora os monges egípcios não tivessem tido uma ideia deliberada de se propagarem e enxamearem. Isso deveu-se mais aos padres do Ocidente, tais como Cassiano, Rufino de Aquileia, Basílio de Cesareia ou Jerônimo que, atraídos por essa vida no deserto, viajaram até ao Oriente e, quando regressaram, começaram a difundir o exemplo egípcio. Aliás, ao princípio a igreja oficial mostrou-se bastante reticente, pois não tinha qualquer controle sobre os mosteiros e suspeitava-os de espalharem doutrinas duvidosas. Mas quando se apercebeu de que os mosteiros eram viveiros de padres, modificou a sua atitude.

Na Grécia, foi Basílio, bispo de Cesareia (que morreu em 379) quem desenvolveu e organizou a vida dos ascetas. Aliás, as Regras que escreveu continuam a ser observadas no mundo ortodoxo. Inspirando-se nesse exemplo, Santo Agostinho - tanto na Itália como no seu bispado de Hipona, em África - insistiu na fraternidade e redigiu uma Regra simples que acabou por obter um grande sucesso durante a Idade Média.

Na Gália, também foram os bispos-abades que, nos seus respectivos territórios, fizeram florescer inúmeras fundações monásticas. Entre outros, podemos citar Martinho de Tour, antigo eremita de Ligugé, em Marmoutier, Santo Honorato em Lérins, Cesário em Arles e Cassiano em Marselha, fundando São Vítor. Ao mesmo tempo, uma vasta corrente missionária e de evangelização começou a expandir-se, através da edificação de séries de mosteiros. Por exemplo, São Patrício, por volta do ano 420, converteu a Irlanda utilizando os mosteiros como representações da sua Igreja; mais tarde, a evangelização dos países germânicos também foi obra de monges.

Durante a Idade Média, a multiplicação dos mosteiros efetuou-se muito rápida e desordenadamente. Mas a verdade é que constituíram a força mais eficaz da conquista cristã, confirmando o seu papel econômico e social. A educação, a transmissão da cultura, a cópia dos textos e a circulação dos conhecimentos é, em grande parte, garantida pelos monges. Quando aos mosteiros, servem de pontos de muda para os viajantes, de hospícios para os deserdados, de centros religiosos e hospitalares ou então dão origem à construção de pontes e estradas. Enfim, desempenham um papel primordial no desenvolvimento econômico e agrícola, nomeadamente permitindo o empreendimento de importantes trabalhos de arroteamento e de saneamento de terrenos.

Mas em contrapartida houve uma grande confusão. Certos mosteiros foram construídos no centro das cidades, outros em vilas, ou em pleno campo ou em lugares afastados de tudo e de todos. Não existia unidade entre as várias fundações - nem do ponto de vista dos meios nem do da organização interna. Coexistiam todas as formas de vida monástica.

Algumas ordens, como a de Cluny, tornavam-se potências financeiras e políticas - o que lhes viria a ser nefasto -, enquanto que outras pregavam uma vida de eremita, a mais austera possível. Transformavam-se as Regras, que se iam adaptando às necessidades de cada um, e isso, num certo sentido, também era um sinal de vitalidade. De resto, nenhum destes fatos significa que tenha havido um relaxamento da fé, pois que esse período de expansão e de criação estava dominado pelo fervor e pela comunicação de um único espírito. Mas havia uma quantidade de observâncias e, do ponto de vista puramente estrutural, uma verdadeira falta de coesão.

Bento e Gregório, o Grande

Em 547, quando São Bento morreu, ninguém imaginava que a sua Regra iria reger, durante vários séculos, quase todos os mosteiros do Ocidente. Mas foi o que aconteceu. São Bento nascera em 480, na província italiana de Núrcia. Seguindo o exemplo de Pacômio, aos 20 anos retirou-se para uma gruta e, também como Pacômio, atraiu numerosos discípulos cuja vida teve de ser organizada. Começou por fundar um mosteiro, em Subiaco e, por volta de 529, fundou outro, em Monte-Cassino (Campânia), onde permaneceu até à sua morte.

Foi para a abadia de Monte-Cassino que, no fim da sua vida, Bento redigiu uma Regra, inspirada nas que naquela altura circulavam: as de Pacômio, de Agostinho, de Cassiano, e de um texto anônimo conhecido pelo nome de Regra do Mestre.

Nessa mesma época, outra Regra, escrita pelo monge irlandês Colomban, conhecia uma rápida difusão. Era mais severa e tomava menos em consideração a experiência quotidiana que a de Bento, mas Colomban e os seus discípulos viajavam por toda a Europa, a fim de a divulgarem. E, se, finalmente, a Regra de Bento passou a ser a «Carta do monaquismo», foi sobretudo graças à ação de São Gregório, o Grande.

Quando Bento morreu, apenas três mosteiros observavam as suas prescrições e, trinta anos mais tarde, em 580, o Monte-Cassino era destruído pelos Lombardos. Mas como antigo beneditino, Gregório - logo que foi eleito papa, em 590, encarregou-se da propagação da Regra e de fazer que a maioria dos monges a seguisse. A ambição deste papa era dupla: favorecer o monaquismo (que, nessa época, era o melhor instrumento para a expansão do cristianismo) e desenvolver uma legislação unificada sobre a qual poderia exercer um maior controle.

No fim do seu pontificado, em 640, já uma rede de mosteiros beneditinos cobria a Europa. Tratava-se de novas abadias - como, na Inglaterra, as de Jarrow, Malmes-burry ou Westminter - e de fundações antigas e reconvertidas -tais como Lérins e Marmoutier. Durante o século VII, os Carolíngios continuaram essa obra de unificação; sob a sua influência, a Regra de São Bento foi, pouco a pouco, suplantando todas as outras. A Regra Colombaniana - mesmo na Irlanda, onde melhor correspondia à austeridade do país - foi progressivamente atenuada e absorvida pela corrente beneditina. Carlos Magno confirmará essa lenta implantação, de tal modo que, no fim do seu reinado, só havia duas formas de vida religiosa: os monges que viviam na Regra de Bento e os cônegos regulares.

Extraído de:

MURRAY, Bruno. As Ordens Monásticas e Religiosas. 1989: Publicações Europa América, Portugal. 

 

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