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«Augustine of Hippo Refuting Heretic»
(Illuminated manuscript, thirteenth century, from Morgan Library, New York, M. 92, ©Morgan Library)

As Heresias e a Fé Cristã

Pe. José Artulino Besen

Primeiras Dificuldades

esus Cristo não elaborou um discurso teológico, mas serviu-se de uma linguagem vitalmente religiosa. Sua pessoa e vida, suas palavras singelas e atitudes constituíram o centro de sua mensagem. Foi só após a ressurreição que os apóstolos passaram a anunciá-lo.

«Carinus the Heretic Raises Notched Sword and Plunges Dagger into the Back of Peter Martyr» (Illuminated manuscript, thirteenth century, from Morgan Library, New York, M. 72, ©Morgan Library)

Paulo e João, os dois primeiros teólogos cristãos, apresentaram, de modo mais sistemático, o ensinamento sobre Deus e sobre Cristo.

João, já em seu tempo, deparou-se com os docetistas. Eles julgavam que Cristo tinha uma humanidade apenas aparente, que era Deus que nele se disfarçava, não tendo um corpo real. Contra eles, João afirma a humanidade real do Senhor: “Anunciamos o que nossas mãos têm apalpado” (cf. 1Jo 1,1-4).

Paulo, por sua vez, teve que enfrentar os judaizantes. Eles afirmavam ser necessário, para quem se tornava cristão, seguir as práticas morais judaicas e, portanto, tornar-se judeu antes de ser cristão. Paulo responderá defendendo a liberdade dos filhos de Deus frente à lei (cf. Rm 1,16-17).

Quem é o Deus de Jesus Cristo?

«Ambrose of Milan Expelling Jews or Arians,» (Illuminated manuscript, fifteenth century, from Morgan Library, New York, M. 672-5, ©Morgan Library

Através de suas palavras, Jesus testemunhou a verdade sobre Ele, o Pai e o Espírito Santo. No entanto, durante os séculos de perseguições, a Igreja não teve ocasião e nem condições de refletir sobre a verdade do Deus Trindade, que podemos assim sintetizar:

Um só Deus: Pai = Deus; Filho = Deus; Espírito Santo = Deus.

No século IV, com a liberdade religiosa, houve condições e necessidade de uma formulação teológica clara, sob pena de se destruir a alma da revelação cristã: o Deus Trindade.

Diante da imprecisa formulação teológica, apesar da boa vontade, vai-se caindo em algumas heresias. A heresia (= escolha) não sempre é um erro total, mas peca pela escolha de apenas uma parte da verdade. Por exemplo: afirmar que Cristo é Deus é verdade, mas é heresia dizer que é somente Deus e não Homem.

Heresias Trinitárias

Monarquianos: há uma hierarquia na Trindade, tendo o Pai mais completa substância divina e mais poder.

Modalistas: o Filho é apenas um modo, uma forma diversa de aparição do Pai.

Patripassianistas: foi o Pai, disfarçado em filho, que morreu na cruz.

Dinamistas: O Filho não é uma encarnação divina, mas sim uma potência do Pai.

Arianistas: Cristo não é nascido de Deus, mas é a primeira criatura que Deus fez do nada. A tal ponto Deus o uniu a si que o acolheu como Filho.

Pneumatômacos: reconheciam a divindade do Filho, mas negavam a do Espírito Santo.

Diante destes problemas que atingiam a essência do Deus cristão, a Igreja serviu-se do trabalho teológico de grandes bispos, monges e teólogos. Com isso, a Igreja buscou afirmar, para todo o corpo eclesial, a mesma fé.

«A Jew and Five Christians Pray to God» (Woodcut, fifteenth century, The Illustrated Bartsch, vol. 84)

Os Pais da Igreja

Os Pais da Igreja (Santos Padres), como os santos: Atanásio, Basílio de Cesaréia, Gregório de Nissa, Gregório de Nazianzo, Cirilo de Alexandria e outros, colocaram-se na defesa intransigente da fé ortodoxa, defendendo a divindade do Filho e do Espírito Santo.

Seu trabalho e influência garantiram a unidade da Igreja. Para um assunto tão importante, a Igreja convocou grandes assembléias conciliares, os chamados Concílios Ecumênicos, aos quais participavam todos os bispos.

A Unidade Divina

Nicéia em 325

Em 325 foi convocado um Concílio Ecumênico na cidade de Nicéia. O imperador Constantino ofereceu o transporte e a hospedagem aos bispos, pois tinha grande interesse na unidade da Igreja que, para ele, significava a unidade do Império.

«Gratian, Decretum: Causa 23, Heretics Suppressed,» (Illuminated manuscript, thirteenth century, from Stiftsbibliothek, Admont, lat.9)

A maioria dos bispos veio do Oriente, o que vale para os quatro primeiros Concílios. Motivo: facilidade de participação e maior interesse teológico da parte oriental. O Papa enviava representantes.

Iluminado pelo Espírito e esclarecido pelos grandes Pais da Igreja, o Concílio definiu Jesus Cristo como verdadeiro Deus, da mesma substância (homoúsios) divina que o Pai.

Jesus: Deus e Homem

Constantinopla em 351

Outro Concílio, desta vez na cidade de Constantinopla, em 351, definiu o Espírito Santo Deus verdadeiro, da mesma substância divina do Pai, de quem procede.

A unidade divina estava assim definida: um Deus e três Pessoas divinas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Permanecia outro problema, cristológico: Jesus Cristo é Deus e é Homem. Como afirmar as duas naturezas sem enfraquecer a divindade ou a humanidade?

Sobre isso temos duas grandes heresias:

Nestorianismo: Jesus Cristo consta de duas pessoas: a segunda Pessoa divina e o Homem Jesus. Quebrando a unidade do Redentor, afirma que a união do Homem e do Filho é como a de dois pedaços de madeira amarrados: há apenas conjunção, não união. Deste modo, nega a encarnação do Filho, pois o Homem Jesus não é divino e, portanto, Maria não é Mãe de Deus, mas apenas do Homem Jesus.

Monofisimo: querendo afirmar a real união das duas naturezas em Jesus, a divina e a humana, conclui que a união é tão íntima que Jesus tem apenas uma natureza (= monofisis), a divina, que absorve a natureza humana.

A Unidade do Filho

Éfeso, em 431

Reunidos na cidade de Éfeso, em 431, os bispos condenaram o nestorianismo, afirmando que Jesus tem duas naturezas perfeitas, a divina e a humana, unidas numa única Pessoa divina e, portanto, Maria é verdadeiramente Mãe de Deus (Theotókos), pois não se podem separar em Jesus o divino e o humano (união hipostática).

Uma Pessoa e Duas Naturezas

Calcedônia, em 451

E em 451, o quarto grande Concílio Ecumênico de Calcedônia condenou o monofisismo. Devido à grande divisão no seio dos patriarcados (Roma contra Constantinopla, Antioquia e Alexandria contra Constantinopla) pelo entusiasmo teológico, foi determinante a carta escrita pelo papa Leão Magno ao patriarca de Constantinopla em 449.

A carta foi lida na assembléia conciliar e entusiasticamente aclamada (“Pedro falou pela boca de Leão”). Tendo sido aprovada, definiu que no Filho há uma só Pessoa (divina) e duas naturezas (divina e humana) perfeitas, sem mistura nem divisão.

Os quatro primeiros Concílios Ecumênicos são fundamentais para a fé cristã, pois, a partir deles, foi completado o Símbolo da Fé, o Credo niceno-constantinopolitano: o Deus de Jesus é a Trindade, e o Filho de Deus é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.

As primeiras divisões

Nem todos os bispos aceitaram a condenação do nestorianismo e, ao voltarem às suas ovelhas, formaram Igrejas fora da unidade. Isso aconteceu: na Índia, Pérsia e norte da Arábia.

Apesar da clareza doutrinal de Calcedônia, o monofisismo formou Igrejas separadas nos patriarcados de Alexandria, Antioquia, constituindo hoje Igrejas vivas e heróicas no Egito (os coptas), Etiópia e Síria.

Problema de linguagem

O diálogo teológico atual, ecumênico, revela que as controvérsias doutrinais foram muito mais um problema de linguagem que de conteúdo. Quando um grego e um romano falavam de pessoa, o alexandrino entendia natureza, e surgia a controvérsia. Prova disso é que a Igreja de Roma hoje mantém unidade doutrinal com os monofisitas, tendo Paulo VI e o patriarca copta do Egito recitando juntos o Credo. A fé é a mesma, a linguagem é que é problemática para expressar as verdades sobre Deus.

Componente política

Os patriarcados de Alexandria e Antioquia se sentiam oprimidos pela arrogância religiosa e política de Constantinopla. Para eles, pensar diferente era questão de dignidade e liberdade.

Os monges e o povo

Também não deve ser esquecida a participação dos monges e do povo nas controvérsias doutrinais e durante os Concílios. Formavam-se partidos, muitas vezes armados, na defesa da doutrina. São Cirilo chegava a fechar o porto de Alexandria para garantir a doutrina ortodoxa, impedindo assim as exportações de trigo para Constantinopla.

Diferentemente dos ocidentais, os orientais vibravam com as questões teológicas e, para defender a verdade, achavam válida uma boa briga.


Para refletir:

  1. Quem foram os primeiros teólogos cristãos? Por quê?
  2. Quais foram as primeiras grandes heresias que a Igreja enfrentou?
  3. Qual a importância dos Concílios para a História da Igreja?
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